Plano prevê empresas, cultura e moradias para devolver movimento diário a uma área com 1,2 mil imóveis vazios
Lojas fechadas, salas desocupadas e circulação reduzida fora do horário comercial poderão dar lugar a empresas de tecnologia, atividades culturais, serviços e moradias no Setor Comercial Sul. A transformação integra o projeto de criação de um polo criativo e tecnológico para reocupar uma das áreas mais centrais de Brasília.
A proposta foi destacada neste sábado, 20 de junho, durante a posse de José Aparecido Freire para um novo mandato à frente do Sistema Fecomércio-DF. A governadora Celina Leão participou da cerimônia e afirmou que o Governo do Distrito Federal dará andamento aos procedimentos necessários para tirar o projeto da fase de estudos.
O diagnóstico elaborado pela Universidade Católica de Brasília e pela Universidade de Brasília identifica pelo menos dez edifícios com espaços ociosos e cerca de 1,2 mil lojas e salas desocupadas no setor.
O levantamento propõe combinar atividades econômicas, inovação, cultura, entretenimento e habitação para manter pessoas circulando na região durante mais horas do dia.
A intenção está definida. Ainda faltam, porém, informações públicas essenciais para medir a execução, como orçamento global, calendário de intervenções, divisão das responsabilidades e metas para a ocupação dos imóveis vazios.
Estudo busca interromper esvaziamento da região central
O Polo Criativo Tecnológico foi desenvolvido a partir de levantamentos urbanos, econômicos, sociais e culturais realizados no Setor Comercial Sul.
O projeto reúne universidades, entidades empresariais, representantes locais e órgãos públicos. A pesquisa mapeou empreendimentos, ouviu empresários e analisou os obstáculos que dificultam a ocupação permanente da região.
O Setor Comercial Sul mantém localização privilegiada. Está próximo à Rodoviária do Plano Piloto, ao metrô, à W3 Sul, ao Setor Hospitalar e ao centro administrativo de Brasília. Mesmo assim, enfrenta esvaziamento de edifícios, redução do movimento noturno e perda de atividades econômicas.
A governadora afirmou que a apresentação do diagnóstico encerra uma etapa e abre o período de implementação administrativa.
“Nós abraçamos o projeto e, agora, a determinação do governo é que seja feito, implementado e que sejam tomados os trâmites burocráticos”, declarou Celina Leão.
A fala representa um compromisso político com a proposta, mas não equivale ao início imediato de obras. A implantação ainda depende da conversão das recomendações acadêmicas em projetos executivos, instrumentos legais, fontes de financiamento e responsabilidades institucionais.
Moradias são consideradas necessárias para ocupação contínua
Uma das principais recomendações é permitir e estimular moradias no Setor Comercial Sul. A proposta busca reduzir uma característica histórica da região, marcada por grande circulação durante o expediente e esvaziamento progressivo à noite e nos fins de semana.
José Aparecido defendeu que empresas e espaços culturais, isoladamente, podem não garantir movimento durante todo o dia.
“Além das empresas, precisamos de movimentação. Por isso, a Fecomércio-DF é a favor de que haja moradias também no Setor Comercial Sul, com estudo e respeitando todas as normas de tombamento”, afirmou.
A ocupação residencial pode aumentar a demanda por mercados, farmácias, alimentação, lazer e outros serviços cotidianos. Também pode ampliar a presença de pessoas fora do horário comercial.
Esse efeito, contudo, não ocorre automaticamente. A conversão de edifícios comerciais em residenciais exige análise das estruturas, ventilação, iluminação, redes hidráulicas, segurança contra incêndios, acessibilidade e disponibilidade de equipamentos públicos.
A política habitacional também precisará definir quem poderá morar na região. Sem critérios de diversidade econômica, a revitalização pode valorizar os imóveis sem necessariamente ampliar o acesso à moradia ou preservar comerciantes e trabalhadores já estabelecidos no setor.
PPCUB define limites para mudanças urbanísticas
A proposta precisa respeitar o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília, conhecido como PPCUB.
A legislação organiza os usos e os parâmetros de ocupação da área tombada da capital. O plano incentiva a diversificação de atividades nos setores Comercial Norte e Sul e prevê a possibilidade de funcionamento contínuo de estabelecimentos em determinadas áreas.
A lei complementar aprovada em 2024 também incorporou regras que ampliaram os tipos de atividades econômicas permitidas no Setor Comercial Sul. A mudança abriu espaço para negócios de tecnologia, educação, alimentação, cultura, serviços e produção criativa.
O diagnóstico agora busca organizar essas possibilidades dentro de uma estratégia territorial comum.
A Fecomércio-DF informou que a criação formal do polo deverá ser discutida nos procedimentos de revisão e regulamentação do planejamento urbano. Qualquer alteração precisa preservar as características do conjunto tombado e passar pelas instâncias responsáveis.
Reocupação depende de mais do que identidade visual
O projeto prevê a construção de uma identidade própria para o polo, com comunicação visual e posicionamento voltado à tecnologia e à economia criativa.
Esses elementos podem ajudar a atrair empresas, eventos e visitantes. Não substituem, entretanto, intervenções urbanas básicas.
Uma reocupação duradoura depende de calçadas acessíveis, iluminação, limpeza, transporte, segurança, conservação dos edifícios e integração com os trabalhadores, comerciantes, moradores e pessoas em situação de rua que já utilizam o território.
Também será necessário criar incentivos para que proprietários coloquem imóveis ociosos novamente em uso. Sem mecanismos econômicos ou regulatórios, parte das salas pode continuar fechada mesmo depois da conclusão das obras em áreas públicas.
A revitalização precisa evitar que o setor se transforme apenas em cenário para eventos ocasionais. O objetivo declarado é criar atividade econômica e circulação cotidiana, não apenas movimento em datas específicas.
Fecomércio inicia novo mandato de quatro anos
José Aparecido Freire foi reconduzido à presidência da Fecomércio-DF no final de maio. A eleição teve chapa única e recebeu os votos dos 24 representantes de sindicatos empresariais participantes.
Ele seguirá também à frente dos conselhos regionais do Sesc-DF e do Senac-DF pelos próximos quatro anos.
Aparecido assumiu inicialmente um mandato complementar em 2021 e foi eleito para o período regular seguinte em 2022. Na nova gestão, apontou a expansão das unidades de formação profissional e a implantação do polo no Setor Comercial Sul entre as prioridades.
“Agora nós temos projetos de expansão, inclusive com aquisições de imóveis para fazer essas expansões”, afirmou.
O dirigente também citou a parceria com a Secretaria de Educação para ampliar polos de qualificação profissional do Senac em diferentes regiões do Distrito Federal.
Celina Leão destacou a atuação da entidade nas áreas de educação, saúde e capacitação profissional e afirmou que a parceria será mantida.
Serviços concentram mais de 95% da economia distrital
A discussão sobre o futuro do Setor Comercial Sul ocorre em uma economia fortemente dependente dos serviços.
Em 2023, o setor respondeu por 95,4% do Produto Interno Bruto do Distrito Federal. O PIB local alcançou R$ 365,7 bilhões naquele ano.
O percentual abrange uma estrutura ampla que inclui administração pública, comércio, atividades financeiras, serviços profissionais, tecnologia, saúde, educação, turismo e outras áreas. Portanto, não deve ser atribuído exclusivamente às empresas representadas pela Fecomércio.
A entidade informa que os segmentos de comércio de bens, serviços e turismo somam mais de 731 mil trabalhadores entre os mais de 1,06 milhão de vínculos formais do Distrito Federal.
A Fecomércio e os sindicatos empresariais associados afirmam representar aproximadamente 277 mil empresas.
Revitalização precisará sair da maquete
O diagnóstico oferece uma direção para enfrentar o esvaziamento do Setor Comercial Sul. A combinação de empresas, cultura, tecnologia, serviços e moradias pode ampliar a circulação e aproveitar edifícios que hoje permanecem parcialmente vazios.
O resultado dependerá da passagem entre duas etapas que costumam ser bem diferentes na administração pública. Uma é produzir estudos, apresentações e imagens de como a região poderá ficar. A outra é definir recursos, responsabilidades, prazos e regras capazes de transformar propostas em ocupação real.
A parceria entre governo, universidades e setor produtivo amplia a capacidade técnica do projeto. Também exige transparência sobre quem decidirá os rumos do polo, como serão usados os recursos públicos e quais grupos serão beneficiados.
Sem cronograma e financiamento definidos, o projeto permanece como planejamento. Com governança, metas verificáveis e participação de quem vive e trabalha na região, poderá se tornar uma política de recuperação do centro de Brasília.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Ceilândia recebe R$ 30 milhões em obras do GDF (Fonte em Foco)
– Crédito rural pode mais que triplicar colheita de alho (Fonte em Foco)
– GDF envia projeto sobre acolhimento à população de rua (Fonte em Foco)
– Asfalto tira escola rural da poeira no Incra 9 (Fonte em Foco)
– Estudo sobre o Polo Criativo Tecnológico (Fecomércio-DF)
– Criação do polo e planejamento urbano (Fecomércio-DF)

