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Portela leva batuque gaúcho e Príncipe do Bará à Sapucaí

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Paulo Andrade

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Portela aposta no batuque gaúcho e no Príncipe do Bará como enredo

Uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, a Portela levará para a Marquês de Sapucaí, no próximo carnaval, a história e as origens do batuque, religião de matriz africana reconhecida como a principal praticada no sul do Brasil. O tema do desfile é “O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, que propõe revisitar a formação religiosa afro-brasileira a partir do Rio Grande do Sul.

O batuque, também chamado de nação, integra o conjunto das principais religiões afro-brasileiras ao lado do candomblé, da Jurema Sagrada, do tambor de mina, da umbanda e do Xangô de Pernambuco, compondo um mosaico religioso marcado por diversidade regional e histórica.

O Príncipe do Bará e a formação do batuque

Segundo o enredo da escola, o Príncipe do Bará seria Osuanlele Okizi Erupê, líder religioso que, já no Brasil, passou a se chamar Custódio Joaquim de Almeida. Ele teria nascido no século 19, na região do Golfo da Guiné, no litoral ocidental da África, e morrido em Porto Alegre na década de 1930.

As datas exatas de nascimento e morte, assim como a própria origem nobre atribuída a Custódio, são objeto de debate entre historiadores e antropólogos. Um estudo publicado pelo Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul aponta que esses elementos permanecem sob controvérsia acadêmica, o que não impediu a consolidação de sua importância simbólica e religiosa.

Apesar das divergências, o samba-enredo da Portela propõe “resgatar a tradição onde a África assenta”, dando visibilidade a uma presença negra historicamente invisibilizada no imaginário nacional.

Um Brasil fora do senso comum

O desfile também dialoga com dados que desafiam percepções tradicionais sobre a religiosidade afro-brasileira. Segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2022, o Rio Grande do Sul tem proporcionalmente mais praticantes ou devotos de religiões de matriz africana (3,2%) do que o Rio de Janeiro (2,6%) ou a Bahia (1%).

De acordo com o carnavalesco da Portela, André Rodrigues, a proposta do enredo é discutir a descentralização da historicidade negra no país, deslocando o foco para a formação social e cultural do sul do Brasil, tradicionalmente associado a uma narrativa de predominância europeia.

Mediação religiosa e liderança social

A Custódio Joaquim de Almeida é atribuído um papel relevante como mediador entre a população negra e as elites políticas do Rio Grande do Sul. Ele teria atuado como liderança religiosa capaz de preservar liturgias e conhecimentos africanos em um contexto de repressão e invisibilidade.

Em dissertação citada pelo Arquivo Público do Estado, a antropóloga Maria Helena Nunes da Silva afirma que Custódio contribuiu para tornar o batuque mais visível em Porto Alegre, ainda que a prática estivesse muitas vezes restrita a bairros periféricos. Segundo ela, sua atuação ajudou a legitimar uma realidade negra que existia na cidade, mas era mascarada pelo intenso fluxo de migração branca.

Samba, intérprete e disputa interna

O samba-enredo da Portela terá como intérprete principal Zé Paulo Sierra, portelense estreante no posto e que define a oportunidade como a realização de um sonho de infância. Ele relembra a influência familiar e o impacto de sambas históricos da escola em sua formação como cantor.

Ao todo, 36 composições participaram da disputa interna. O samba vencedor é assinado por Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena, e foi defendido por Zé Paulo Sierra desde as fases eliminatórias. O desfile da Portela ocorrerá na noite de domingo, 15 de fevereiro, quando a escola busca mais um título para sua história como a maior campeã do carnaval carioca.

Ordem dos desfiles do Grupo Especial

O desfile da Portela integra o primeiro dia de apresentações do Grupo Especial do Rio de Janeiro. No domingo (15), também desfilam Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense e Mangueira. As apresentações seguem na segunda-feira (16) e na terça-feira (17), reunindo escolas como Mocidade Independente, Beija-Flor, Grande Rio, Vila Isabel e Salgueiro, entre outras.

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