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GDF cria cargos para ex-moradores de rua e muda suas vidas

Publicado em:

Repórter: Paulo Andrade

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O Governo do Distrito Federal iniciou uma mudança inédita na política de inclusão produtiva ao criar 15 cargos comissionados ocupados exclusivamente por pessoas que viveram nas ruas. A medida integra o Plano Distrital para a População em Situação de Rua e já começa a alterar trajetórias marcadas por fome, frio, desemprego e invisibilidade. Desta vez, a política pública saiu do discurso e entrou no contracheque.

A coordenação do plano está a cargo do secretário-chefe da Casa Civil, Gustavo Rocha, que aponta a diretriz central: oferecer condições reais para que a saída das ruas seja sustentável. Segundo ele, retirar alguém de um ponto da cidade sem alternativa concreta apenas empurra o problema para a esquina seguinte. O plano nasceu de um diagnóstico técnico envolvendo vários órgãos do GDF, com mapeamento do perfil dessa população e das lacunas históricas de atendimento, como moradia, qualificação, escola para os filhos e até acolhimento de animais de estimação. Sem renda, afirma Rocha, ninguém rompe o ciclo da rua.

Além das nomeações, o GDF determinou que empresas contratadas reservem 2% das vagas para pessoas em situação de rua. O resultado inicial, segundo o secretário, já passa de 200 pessoas empregadas. Para quem passou meses ou anos dormindo ao relento, o impacto é imediato e profundo. Não é retórica institucional. É sobrevivência com dignidade.

Emprego como eixo da reconstrução

A secretária de Desenvolvimento Social, Ana Paula Marra, reforça que não existe uma história única quando se fala em população em situação de rua. Há rupturas familiares, questões de saúde mental, dependência química e também trajetórias interrompidas por crises econômicas. Tratar todos como iguais é um erro clássico — e confortável — de políticas mal desenhadas.

Na avaliação dela, a inclusão produtiva consolida o processo iniciado pela assistência social. Garantir alimentação, abrigo e atendimento é essencial, mas insuficiente se a pessoa não estiver estruturada para assumir uma rotina de trabalho. Por isso, a estratégia envolve o GDF inteiro, de forma integrada, para superar a extrema vulnerabilidade. Política pública, aqui, não funciona em silos.

Os cargos comissionados, explica a secretária, complementam esse conjunto. Havia uma lei antiga que nunca saiu do papel. O decreto do governador destravou a reserva de vagas nas empresas contratadas e viabilizou as nomeações nas secretarias. Mais do que ocupar funções, essas pessoas passam a participar da construção da própria política que as tirou da rua. Isso muda o jogo.

Da rua ao serviço público

Entre as histórias que ilustram a virada está a de Gilvandro de Araújo Soares, hoje assessor técnico na Secretaria de Justiça e Cidadania. Ele viveu três anos em abrigo público após perder o emprego durante a pandemia. Participou das conferências que antecederam o plano e foi um dos primeiros nomeados. No primeiro salário, saiu do abrigo e alugou um apartamento. Simples assim. Quando a política funciona, o efeito é direto.

Outra trajetória é a de Josiris Lacerda, profissional de tecnologia que passou todo o ano de 2024 nas ruas após perder o emprego. Atendido pelo Centro Pop, conheceu o RenovaDF, concluiu o curso e foi contratado. Hoje mora em Taguatinga Norte e voltou a fazer planos. Ele resume o período nas ruas com uma frase dura e precisa: as pessoas passam e você deixa de existir.

Aroldo Pereira dos Santos enfrentou dificuldades adicionais por usar tornozeleira eletrônica. Mesmo assim, persistiu, ingressou no RenovaDF, retomou os estudos e voltou ao mercado de trabalho. Antes, relata, havia fome e frio. Agora, há escolha — inclusive a de levar filhos e netos para passear. Parece detalhe. Não é.

Política pública que se sustenta

As nomeações se somam a outras iniciativas do GDF, como o RenovaDF, restaurantes comunitários com alimentação gratuita, Hotel Social, passagens interestaduais para reintegração familiar e ampliação do atendimento especializado. O desafio, como admite a própria gestão, é de continuidade. A população em situação de rua cresce, e respostas pontuais não dão conta.

Ainda assim, o que se vê aqui é um raro caso em que o poder público decide enxergar pelo nome, não pelo rótulo. Quando a política pública reconhece a complexidade das histórias e aposta em trabalho, renda e pertencimento, o resultado aparece. Não por milagre. Por método.

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