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Peça gratuita em Ceilândia debate violência de gênero

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Estudantes e público do DF terão teatro gratuito sobre violência contra mulheres

A peça DesdeSempre leva ao Teatro Sesc Newton Rossi, em Ceilândia, uma releitura contemporânea de Otelo, de William Shakespeare, para discutir violência de gênero, manipulação, ciúme e feminicídio. O espetáculo terá uma sessão voltada a estudantes de escolas públicas nesta sexta-feira, 8 de maio, e duas apresentações gratuitas abertas ao público no fim de semana.

As sessões abertas serão no sábado, 9 de maio, às 20h, e no domingo, 10 de maio, às 19h. Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados pela plataforma Sympla. A classificação indicativa é de 14 anos.

Releitura de Otelo aproxima clássico da realidade atual

Inspirado em uma obra escrita no século 17, o espetáculo mistura ficção e relatos reais para tratar de violências que seguem presentes nas relações afetivas. Em Otelo, Shakespeare constrói uma trama marcada por ciúme, manipulação e controle. Em DesdeSempre, esses elementos são deslocados para um debate urgente sobre corpos, desigualdade e poder.

A montagem é conduzida pelo Coletivo Artístico CeinCena e integra uma proposta que usa o teatro como espaço de escuta, formação e provocação social. A escolha de Ceilândia como território de apresentação também reforça a dimensão comunitária do projeto. Arte, quando acerta o alvo, não fica só no palco. Ela senta na plateia e cutuca o silêncio.

Sessão para estudantes terá debate após a peça

Na sexta-feira, estudantes do Centro de Ensino Médio 04, do Centro Educacional 06 e do Centro Educacional 11, todos de Ceilândia, participarão de uma sessão exclusiva. Ao final, haverá conversa com psicóloga e convidados para discutir os temas apresentados no espetáculo.

A atividade faz parte do Projeto Matilha — Teatro, Território e Periferia, que usa a linguagem teatral para abrir espaços de diálogo sobre temas sensíveis. Antes da apresentação, as escolas receberam oficinas sobre pertencimento, responsabilidade social, ciclos de opressão e violência de gênero.

A proposta ganha relevância porque adolescentes de 15 a 18 anos estão em fase decisiva de formação afetiva, social e política. Falar sobre violência, misoginia e relações de poder nesse período não é excesso pedagógico. É prevenção.

Espetáculo liga arte, escola e proteção social

As atrizes Malu Guimarães e Clarisse Fleury destacam que a montagem nasceu da inquietação diante do crescimento dos casos de feminicídio e da permanência de estruturas machistas nas relações. A peça, portanto, não trata Shakespeare como peça de museu. Usa o clássico como espelho para um problema que atravessa séculos.

O espetáculo também aborda a circulação de discursos misóginos entre jovens, incluindo referências a ideias associadas ao universo “red pill”. Esse recorte amplia o debate para além da violência física e chama atenção para a formação de comportamentos, linguagem e crenças que podem normalizar controle, humilhação e desigualdade.

A combinação entre apresentação, oficinas e bate-papo cria um percurso formativo mais completo. O público não apenas assiste à peça. Ele é convidado a reconhecer sinais, nomear violências e pensar caminhos de enfrentamento.

Apoio público viabiliza acesso gratuito

A realização conta com recursos do Programa de Descentralização Administrativa e Financeira, vinculado à Secretaria de Educação do Distrito Federal. O apoio permite que estudantes da rede pública tenham contato com a montagem e que o público em geral acesse gratuitamente as sessões do fim de semana.

Esse ponto é importante porque o debate sobre violência de gênero não deve ficar restrito a campanhas institucionais ou datas simbólicas. Quando chega ao teatro, à escola e ao território, o tema ganha linguagem, rosto e possibilidade de escuta.

A gratuidade também amplia o alcance da iniciativa. Em uma cidade marcada por desigualdades de acesso à cultura, abrir as portas do teatro é parte da política pública. O ingresso gratuito não resolve tudo, mas tira uma catraca do caminho.

Violência de gênero exige linguagem direta

DesdeSempre se insere em uma tradição artística que usa a dramaturgia para revelar conflitos sociais. No entanto, o mérito da montagem está em não tratar a violência contra mulheres como tema distante ou abstrato.

Ao aproximar relatos reais de uma obra clássica, o espetáculo mostra que certas estruturas mudam de roupa, mas continuam reconhecíveis. Ciúme tratado como amor, controle disfarçado de cuidado e silêncio imposto como destino ainda fazem parte da engrenagem da violência.

A arte não substitui política pública, rede de proteção, denúncia e responsabilização. Mas pode abrir a conversa antes que o problema vire estatística. E, nesse tema, falar cedo é sempre melhor do que lamentar tarde.

Serviço:
DesdeSempre
Sábado, 9 de maio, às 20h
Domingo, 10 de maio, às 19h
Teatro Sesc Newton Rossi, em Ceilândia
Ingressos gratuitos pela plataforma Sympla
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 14 anos

Fontes e documentos:

Exposição sobre mulheres segue até 10 de maio (Fonte em Foco)
Turismo Mais Brasília leva 13 mil alunos a roteiros (Fonte em Foco)
Com apoio do GDF, espetáculo inspirado em Shakespeare aborda combate à violência contra mulheres (Agência Brasília)
– Espetáculo DesdeSempre em Brasília (Sympla)

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