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terça-feira, 12 maio 2026, 14:33:17
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Mães atípicas encontram apoio para seguir cuidando

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Rede pública ajuda mães atípicas a recuperar fôlego, autonomia e dignidade no DF

O Dia das Mães costuma ser cercado de flores, frases prontas e homenagens bem-intencionadas. Para as mães atípicas, porém, a data também ilumina uma rotina que quase nunca cabe no cartão: cuidado integral, vigilância constante, terapias, renúncias, medo do futuro e uma pergunta silenciosa que atravessa os dias — quem cuida de quem cuida?

No Distrito Federal, histórias como a de Cleide Maria Magalhães Matos, de 56 anos, mostram como políticas públicas podem mudar não apenas a vida de filhos com deficiência, mas também a das mulheres que, em muitos casos, reorganizam toda a própria existência em torno do cuidado. Mãe de Jessé Magalhães, de 28 anos, diagnosticado com transtorno do espectro autista com necessidade de suporte 3, Cleide encontrou em um dos 13 centros de ensino especial da rede pública um ponto de apoio para o filho e, depois de anos, um caminho de volta para si mesma.

Quando Jessé chegou à sua vida, tinha apenas 40 dias. Mais tarde, veio o diagnóstico, recebido com dor e incerteza. “Eu fui para a beira do lago chorar. Você cria expectativa com um filho. Então, foi um balde de água fria. Mas por ele eu faria tudo novamente, tudo, sem tirar uma vírgula”, contou. O que antes era uma rotina marcada por crises e exaustão começou a mudar com o acolhimento escolar. Hoje, Jessé consegue se regular melhor e até pintar quadros no centro de ensino. Cleide, que havia deixado o trabalho para cuidar do filho, retomou a atividade física, perdeu 34 quilos e passou a cuidar também da própria saúde. “A escola foi meu refúgio”, resumiu.

Apoio à criança também devolve vida à mãe

A rede pública de educação especial do DF atende mais de 27,4 mil estudantes em 675 escolas, com 13 centros de ensino especial e 520 salas de recursos. Nos centros especializados, mais de 3,5 mil alunos com deficiências intelectuais, sensoriais, físicas ou múltiplas recebem atendimento. A estrutura inclui unidades como o Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais e a Escola Bilíngue de Taguatinga, dentro da política de inclusão da Secretaria de Educação.

Esses números não se encerram na sala de aula. Eles alcançam cozinhas, consultas, noites mal dormidas e a saúde mental de mulheres que, muitas vezes, assumem sozinhas o cuidado diário dos filhos. A dona de casa Rute Ferreira de Oliveira, de 55 anos, mãe de Davi, de 12, descreveu uma rotina de terapias pela manhã, escola à tarde e cuidados em casa à noite. Daniele Lourenço, mãe de Moisés, de 4, falou do “turbilhão” dos primeiros anos após o diagnóstico. Já Ana Silva, mãe de Paulo Daniel, de 9, sintetizou uma experiência comum: “A mãe deixa um pouco de ser mulher e vive só a vida de mãe.”

É nesse ponto que a escola deixa de ser apenas espaço pedagógico e passa a funcionar como rede de sustentação familiar. No Centro de Ensino Especial 1, da 912 Sul, mães encontram orientação, escuta e convivência. A diretora Ana Paula Ventorim Rodrigues de Oliveira relata mudanças que ultrapassam o desempenho acadêmico: famílias que conseguiram viajar juntas pela primeira vez, voltar a frequentar restaurantes e reorganizar a rotina dentro de casa. Para mães como Rejane de Freitas Kubiszeski e Francisca Alves Brandão, o espaço também virou lugar de troca, aprendizado e retomada de autonomia.

Quando a inclusão alcança a casa inteira

A experiência escolar também repercute nos próprios estudantes. João Pedro Angotti Medeiros Araújo, de 19 anos, diagnosticado com TEA, contou que no centro se sente acolhido, em contraste com experiências anteriores de bullying. A frase que deixou para o Dia das Mães tem a simplicidade das grandes verdades: “Especialmente à minha mãe, ela é a minha vida.”

A inclusão, quando funciona, não é um favor oferecido ao estudante. É uma política que reorganiza vínculos, reduz isolamento e cria possibilidade concreta de vida com mais dignidade. E isso vale também fora da escola.

A história de Maria do Socorro Ferreira, de 52 anos, e de Emanuel Ferreira, de 28, mostra outra face da maternidade atípica: a que se constrói pelo afeto e encontra na moradia adequada uma condição básica para o cuidado. Adotado ainda criança, Emanuel vivia com a mãe em uma casa pequena, com um único quarto, banheiro e cozinha. Por meio do programa Melhorias Habitacionais, da Codhab, a residência foi reconstruída e ampliada para cerca de 71,7 m², com quarto próprio para ele, melhor ventilação, iluminação adequada e condições mais seguras de habitabilidade. O investimento foi de R$ 99,8 mil.

Ao lembrar o dia da mudança, Maria contou que disse ao filho: “Emanuel, seu quarto agora já está pronto.” A frase parece doméstica, mas carrega uma conquista que vai muito além da obra. Ter quarto, ventilação, circulação e segurança não é detalhe arquitetônico para uma família com pessoa com deficiência. É condição de cuidado, privacidade e dignidade.

Moradia adequada também é política de cuidado

No programa Melhorias Habitacionais, pessoas com deficiência têm prioridade de atendimento. Desde 2018, 239 pessoas foram beneficiadas, entre elas 62 famílias com integrantes com deficiência. Outras 42 famílias aguardam atendimento. Segundo a Codhab, 95% dos atendimentos são destinados a mulheres, muitas responsáveis pelo cuidado diário de filhos com deficiência.

Os critérios incluem residência no DF há pelo menos cinco anos, renda de até três salários mínimos, propriedade do imóvel, ausência de outra residência e localização em área de regularização de interesse social. No caso de famílias com pessoa com deficiência, é exigida documentação específica, como laudo médico e carteira da pessoa com deficiência, podendo também ser aceita comprovação de Benefício de Prestação Continuada.

A assistente social Marilurde Lago relatou que, na primeira visita à casa de Maria e Emanuel, a equipe encontrou situação de vulnerabilidade e que a entrega de uma residência com quarto próprio, iluminação e ventilação adequadas marcou todos os envolvidos no processo. O relato evidencia algo que a gestão pública nem sempre admite com clareza: sem casa digna, muitas políticas de cuidado trabalham sobre chão instável.

O cuidado não pode depender só da resistência feminina

A rotina das mães atípicas costuma ser tratada socialmente como prova de amor. E é. Mas também é trabalho permanente, desgaste físico, impacto emocional e, muitas vezes, perda de renda. Quando o Estado oferece escola especializada, atendimento multiprofissional, moradia adequada e espaços de convivência, não está premiando abnegação. Está cumprindo uma obrigação que ajuda a impedir que a maternidade seja convertida em abandono institucional disfarçado de elogio.

No Dia das Mães, a tentação do discurso fácil é chamar essas mulheres de guerreiras e seguir adiante. O problema é que guerreira virou, muitas vezes, a palavra bonita usada quando falta rede suficiente. As histórias de Cleide, Maria do Socorro e tantas outras mostram que amor sustenta muito, mas não substitui política pública.

O DF tem estruturas que produzem impacto real na vida dessas famílias. O desafio agora é ampliar, manter e qualificar essa rede para que o cuidado não dependa apenas da capacidade quase sobre-humana das mães de aguentar mais um dia. Porque nenhuma mulher deveria precisar desaparecer de si para garantir que o filho exista com dignidade.

Fontes e documentos:

Fiscalização reforçada em restaurantes para o Dia das Mães (Fonte em Foco)
Mães atípicas entre desafios diários o acolhimento transforma rotinas no DF (Agência Brasília)
ADPF 976 medida cautelar sobre população em situação de rua (STF)

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