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Feira do Guará vira patrimônio cultural do DF

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Lei reconhece valor histórico, social e gastronômico de um dos espaços mais tradicionais de Brasília

A Feira do Guará passou a integrar oficialmente o patrimônio cultural imaterial do Distrito Federal. O reconhecimento foi estabelecido pela Lei nº 7.900, sancionada pela governadora Celina Leão e publicada no Diário Oficial do Distrito Federal desta segunda-feira, 8 de junho de 2026.

A norma, de autoria do deputado distrital Ricardo Vale, declara a feira como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal. O texto é objetivo: reconhece a importância do espaço para a memória, os costumes e a identidade coletiva da capital.

O reconhecimento chega para uma feira que há décadas mistura comércio popular, gastronomia, produtos regionais, artesanato, serviços e convivência. Em Brasília, onde a vida urbana muitas vezes parece organizada demais no mapa e fria demais no concreto, a Feira do Guará lembra que cidade também se constrói no balcão, no pastel, na peixaria, na conversa e no encontro.

Patrimônio imaterial valoriza práticas e memória

O título de patrimônio cultural imaterial é concedido a bens, práticas e manifestações que representam saberes, modos de fazer, costumes, tradições e vínculos comunitários. Diferentemente do patrimônio material, voltado a edifícios, monumentos e estruturas físicas, o reconhecimento imaterial protege o valor simbólico e social de uma manifestação cultural.

No caso da Feira do Guará, a lei reconhece a relevância do espaço como referência cultural e econômica. A feira reúne comerciantes, trabalhadores, consumidores e visitantes em uma dinâmica que atravessa gerações.

Isso não significa, automaticamente, tombamento de toda a estrutura física da feira. O foco do reconhecimento está na importância cultural da atividade, da memória e das práticas sociais ligadas ao espaço.

Feira nasceu na década de 1960

Fundada na década de 1960, a Feira do Guará se consolidou como um dos principais pontos de comércio popular do Distrito Federal. O espaço tornou-se conhecido pela variedade de produtos, pelo fluxo de moradores de várias regiões administrativas e pela forte presença gastronômica.

Criada em 1969, segundo registros citados na tramitação da proposta, a feira reúne centenas de lojas e gera renda para milhares de pessoas direta e indiretamente. Também é lembrada pela presença de peixarias, produtos naturais, vestuário, calçados, eletrônicos e itens regionais.

Esse conjunto explica por que a feira ultrapassou a função de ponto de venda. Ela virou lugar de referência. Há espaços comerciais que vendem produtos. A Feira do Guará vende também memória afetiva, rotina de sábado, almoço em família e pertencimento.

Reconhecimento fortalece identidade do Guará

O reconhecimento oficial pode ampliar a visibilidade da feira e reforçar seu papel nas políticas culturais do DF. Espaços declarados patrimônio imaterial tendem a ganhar mais força institucional em debates sobre preservação, fomento, turismo, memória e valorização comunitária.

Para os feirantes, o título também pode ajudar a consolidar a imagem da feira como patrimônio vivo. Isso é importante porque mercados populares costumam enfrentar desafios de infraestrutura, manutenção, concorrência, regularização, segurança e renovação geracional.

A lei não resolve sozinha esses problemas. Mas cria uma base simbólica e política para que o poder público trate o espaço como parte da história do Distrito Federal, não apenas como área comercial.

Comércio popular também é cultura

A Feira do Guará mostra uma dimensão frequentemente esquecida nas políticas culturais: comércio popular também produz cultura. A forma de vender, cozinhar, negociar, escolher ingredientes, atender clientes e ocupar o espaço urbano compõe uma rede de saberes que passa de geração em geração.

Esse tipo de patrimônio não cabe em vitrine de museu. Ele depende de gente circulando, comprando, trabalhando, almoçando e mantendo viva a prática cotidiana. Patrimônio imaterial, no fundo, precisa de uso. Se esvazia, desaparece.

Por isso, reconhecer a feira é também reconhecer os trabalhadores que sustentaram sua história. Feirante não é figurante da cidade. É personagem central de uma Brasília que nem sempre aparece nas fotos oficiais.

Desafio agora é preservar sem engessar

A declaração da Feira do Guará como patrimônio cultural imaterial é um passo relevante, mas o desafio começa depois da publicação da lei. Preservar não pode significar congelar a feira no tempo, nem transformar um espaço popular em cenário turístico sem alma.

O caminho mais responsável é valorizar a identidade da feira, melhorar infraestrutura, garantir condições de trabalho, fortalecer a segurança, organizar o espaço e preservar sua vocação popular. Patrimônio vivo precisa respirar, vender, mudar e continuar sendo útil para a comunidade.

A Feira do Guará chega ao reconhecimento oficial porque já era patrimônio na prática. A lei apenas colocou no papel aquilo que Brasília aprendeu há décadas: algumas tradições não moram em monumentos. Moram onde o povo se encontra.

Relacionadas, fontes e documentos:

– Feiras do DF ganham sinal verde para abrir à noite (Fonte em Foco)
– Feira leva capacitação e renda a Água Quente (Fonte em Foco)
– Asfalto tira escola rural da poeira no Incra 9 (Fonte em Foco)
– DF reduz crimes letais e lidera ranking de segurança (Fonte em Foco)
– 
Lei nº 7.900, de 3 de junho de 2026 (Diário Oficial do Distrito Federal)
– Projeto de Lei nº 1.991, de 2025 — Redação Final (Câmara Legislativa do Distrito Federal)
– Feira do Guará é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal (Agência Brasília)

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