Receio com segurança digital ganha peso na decisão das famílias e diferencia os mais jovens do restante da população
A parcela de crianças de 10 a 13 anos com telefone celular próprio caiu de 56,7% para 55,2% entre 2024 e 2025. Foi o único grupo etário a registrar redução no período, enquanto a posse do aparelho avançou no restante da população brasileira.
Entre as crianças dessa idade que não tinham celular, 32% apontaram preocupação com privacidade ou segurança como o principal motivo. O resultado não significa que um terço de todas as crianças brasileiras esteja sem aparelho por essa razão. O percentual considera apenas o grupo que não possuía telefone para uso pessoal.
Celular infantil recua enquanto uso cresce no país
Em 2025, aproximadamente 167,4 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais tinham celular próprio, o equivalente a 89,8% dessa população. O índice aumentou 0,9 ponto percentual em relação ao ano anterior e alcançou o maior patamar da série iniciada em 2016.
A trajetória dos mais jovens seguiu na direção contrária. Na faixa de 10 a 13 anos, a proporção caiu 1,5 ponto percentual. Entre pessoas de 14 a 19 anos, o índice chegou a 88,5%, mostrando que a posse do aparelho cresce de forma acentuada a partir da adolescência.
A redução registrada em 2025, contudo, não foi a primeira queda anual desde o início da pesquisa, como poderia sugerir uma leitura apressada dos dados. Registros anteriores já haviam mostrado recuo de 0,7 ponto percentual entre 2022 e 2023 nessa faixa etária. O dado correto é que crianças de 10 a 13 anos formaram o único grupo com queda entre 2024 e 2025.
Segurança supera preço entre famílias com crianças
A mudança mais expressiva aparece nas razões apresentadas para não oferecer um aparelho próprio às crianças.
Entre os entrevistados de 10 a 13 anos que não tinham celular, a preocupação com privacidade ou segurança liderou com 32%. Em seguida apareceram a falta de necessidade, indicada por 22,6%, o uso do aparelho de outra pessoa, com 16,4%, e o preço do telefone, com 15,2%.
Somente 3,3% disseram não saber utilizar o aparelho. O resultado mostra que, entre os mais jovens, a ausência do celular está menos associada à falta de habilidade tecnológica e mais vinculada a uma decisão familiar sobre acesso, exposição e necessidade.
No conjunto da população sem celular, o cenário é diferente. A falta de conhecimento para utilizar o aparelho ainda lidera, com 31,1%, seguida pela falta de necessidade, com 21,1%, e pelo preço do telefone, com 14,9%.
A preocupação com privacidade ou segurança representou 11,8% das respostas gerais. Embora menor do que entre crianças, esse percentual mais que dobrou em relação aos 4,8% registrados em 2022. Ao mesmo tempo, o peso do preço do aparelho caiu de 24,8% para 14,9%.
Restrição nas escolas integra um cenário mais amplo
A legislação nacional que restringiu o uso de celulares nas escolas entrou em vigor em janeiro de 2025. A norma proíbe o uso dos aparelhos durante aulas, recreios e intervalos na educação básica, com exceções para atividades pedagógicas, acessibilidade, inclusão, condições de saúde e situações de necessidade ou emergência.
A medida pode ter ampliado o debate entre famílias sobre exposição digital, excesso de telas e necessidade de um aparelho próprio. A pesquisa, porém, não demonstra que a lei provocou a queda.
A PNAD Contínua mede a posse de celular e registra o principal motivo declarado por quem não tem o aparelho. Ela não investiga se a decisão familiar foi tomada por causa da legislação escolar. Além disso, a lei limita o uso dentro da escola, mas não impede que o estudante possua um telefone.
Essa distinção evita transformar uma coincidência temporal em relação comprovada de causa e efeito. O crescimento da preocupação com segurança pode envolver diferentes fatores, como exposição em redes sociais, golpes, contatos com desconhecidos, coleta de dados, conteúdo inadequado e tempo excessivo diante das telas.
Acesso à internet também recua entre os mais jovens
O uso da internet por crianças de 10 a 13 anos apresentou uma redução menor, de 84,9% para 84,4%. A faixa foi novamente a única com queda, enquanto o índice nacional avançou para 90,5%, ultrapassando pela primeira vez a marca de nove usuários a cada dez brasileiros com 10 anos ou mais.
Entre as crianças dessa idade que não utilizaram a rede, a falta de necessidade liderou as respostas, com 33,8%. A preocupação com privacidade ou segurança apareceu logo depois, com 30,3%.
A diferença entre posse de celular e acesso à internet também indica que muitas crianças permanecem conectadas por outros meios ou utilizam equipamentos compartilhados. Em 2025, 84,4% acessaram a rede, mas apenas 55,2% tinham telefone próprio.
Idosos ampliam presença no ambiente digital
Enquanto o acesso recuou entre os mais jovens, pessoas com 60 anos ou mais apresentaram o maior crescimento anual. A parcela de idosos que utilizava a internet subiu 4,4 pontos percentuais e chegou a 74,5% em 2025.
A posse de celular nesse grupo passou de 78,3% para 80,3%. Entre os idosos que ainda não tinham aparelho, 61% alegaram não saber utilizá-lo. Entre aqueles que não acessaram a internet, a falta de conhecimento foi citada por 66,5%.
O avanço digital ocorre em um contexto no qual atividades cotidianas migraram para aplicativos e páginas eletrônicas. Em 2025, 74,2% dos usuários acessaram bancos ou instituições financeiras pela internet, enquanto 41,1% utilizaram serviços públicos digitais.
Pela primeira vez, mais da metade dos usuários, 52,7%, declarou ter comprado ou encomendado bens e serviços pela rede. As chamadas de voz ou vídeo permaneceram como a atividade mais frequente, realizada por 95,3% dos usuários.
Menos aparelho não significa ausência de educação digital
A queda na posse de celular entre crianças pode indicar maior cautela familiar, mas retirar ou adiar o aparelho não elimina os riscos do ambiente virtual.
Crianças que usam dispositivos de familiares, computadores escolares, televisores conectados ou tablets continuam expostas a plataformas digitais. A proteção depende também de orientação compatível com a idade, configuração de privacidade, acompanhamento responsável e canais para relatar abordagens, ameaças ou conteúdos inadequados.
O dado de 2025 marca uma mudança relevante na motivação das famílias. O preço do aparelho perde força, enquanto privacidade e segurança passam ao centro da decisão. A tela continua por perto. O que começa a mudar é quem entrega a chave e sob quais condições.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Orgulho LGBTQIA+ relembra luta por direitos no Brasil (Fonte em Foco)
– Internet ruim amplia risco de desinformação no Brasil (Fonte em Foco)
– Senado prorroga até 2030 benefícios fiscais da IoT (Fonte em Foco)
– Projeto alerta sobre desafios perigosos nas redes sociais (Fonte em Foco)
– Proporção de usuários da internet ultrapassou 90% em 2025 (IBGE)

