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Foto de pássaros vira ouro no Cannes Lions de 2026

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Imagem feita no cotidiano atravessou a fotografia, a música e a publicidade até receber um dos principais prêmios da comunicação mundial

Uma fotografia produzida em 2009, sem encomenda comercial ou planejamento artístico prévio, tornou-se a origem de uma campanha premiada com o Leão de Ouro no Cannes Lions de 2026. A imagem de pássaros pousados sobre fios elétricos, registrada pelo fotojornalista Paulo Pinto em Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande do Sul, inspirou primeiro uma composição musical e, anos depois, a campanha Sinfonia da Energia.

O prêmio foi concedido na categoria Audio & Radio à campanha criada pela Africa Creative para a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica, a Abradee. A peça ampliou uma ideia nascida 17 anos antes, quando o compositor e publicitário Jarbas Agnelli percebeu que a posição das aves sobre cinco fios poderia ser interpretada como uma pauta musical.

Pássaros nos fios começaram uma história sem roteiro

A origem do projeto remonta a agosto de 2009. Paulo Pinto passava um período em sua cidade natal quando fotografou as aves alinhadas diante da casa da mãe. A cena fazia parte da rotina do local e não estava vinculada a uma pauta jornalística específica.

Foi a mãe do fotógrafo quem chamou sua atenção para a quantidade de pássaros reunidos nos fios. Paulo percebeu que a disposição das aves lembrava uma partitura, mas não levou a associação adiante porque não dominava teoria musical.

A fotografia foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo e chegou às mãos de Jarbas Agnelli. Ao observar os cinco fios e a posição das aves, o compositor decidiu atribuir notas a cada pássaro e reproduzir a sequência ao piano.

Quatro dias após a publicação, Paulo recebeu um e-mail de Agnelli relatando a experiência. O fotógrafo enviou então o arquivo original em alta resolução. A imagem ampliada revelou outras aves, o que levou o compositor a revisar e estender a música.

“Uma fotografia virar música já é algo extraordinário”, recorda Paulo Pinto.

Birds on the Wires alcançou repercussão internacional

A composição recebeu o nome de Birds on the Wires. O vídeo que apresentava a fotografia e a sequência musical circulou amplamente na internet e transformou um exercício criativo em um projeto reconhecido internacionalmente.

Agnelli passou a apresentar o trabalho em palestras e eventos. A obra também chegou ao Museu Guggenheim, em Nova York, consolidando a ligação entre a imagem documental, a composição musical e a experimentação audiovisual.

O alcance do projeto mostrou que a força da fotografia não estava apenas na cena capturada, mas na possibilidade de outra linguagem reinterpretá-la sem apagar sua origem.

A imagem permaneceu reconhecível. Os pássaros continuaram sendo pássaros. Os fios, porém, ganharam uma segunda função simbólica, como se a infraestrutura urbana tivesse se convertido em pentagrama.

Campanha reuniu mais de 700 fotografias

Quinze anos depois da composição original, Agnelli foi convidado pela Abradee e pela Africa Creative a transformar o conceito em uma obra orquestral. Fotógrafos de diferentes regiões do país enviaram mais de 700 imagens de aves pousadas sobre redes elétricas. Bancos de imagens também foram consultados durante o processo.

A versão final utilizou 60 fotografias para formar a partitura da Sinfonia da Energia. As posições das aves foram mantidas como apareciam nos registros originais, sem alteração digital destinada a reorganizar as notas.

Paulo Pinto voltou a participar do projeto com novas imagens feitas no mesmo local onde havia produzido a fotografia de 2009. O retorno, no entanto, ocorreu em um cenário marcado por ausências.

Sua mãe e o vizinho que alimentava os pássaros já haviam morrido. As aves também não estavam mais reunidas nos fios como antes.

“Foi aí que entendi que eles tinham ido para o mundo”, afirma o fotógrafo.

Sinfonia da Energia levou a ideia ao palco

A obra foi apresentada em eventos da Abradee com formação orquestral. A composição, a edição e a direção ficaram a cargo de Jarbas Agnelli, enquanto a campanha publicitária foi desenvolvida pela Africa Creative.

O projeto conectou a presença cotidiana das redes de distribuição de energia com a convivência das aves nesse ambiente. Em vez de recorrer apenas a dados técnicos ou imagens institucionais, a campanha adotou a música como elemento de comunicação.

A estratégia transformou um tema associado à infraestrutura em uma narrativa sensorial. O fio que transporta eletricidade também passou a sustentar uma partitura construída pela própria disposição dos animais.

O resultado foi reconhecido com o Leão de Ouro em Audio & Radio no Cannes Lions, um dos principais festivais internacionais da indústria da comunicação e da publicidade.

Prêmio também reconhece uma cadeia de criação

O ouro em Cannes não pertence a um gesto isolado. A campanha nasceu de uma sequência de contribuições que começou com a atenção da mãe de Paulo, passou pelo olhar documental do fotógrafo, ganhou tradução musical com Agnelli e foi ampliada pela agência, pela Abradee, pelos músicos e pelos demais autores das imagens.

Essa cadeia ajuda a explicar por que o projeto resistiu ao tempo. A fotografia não foi tratada como mero ponto de partida descartável. Ela permaneceu visível como fundamento da composição.

Paulo Pinto aparece entre os fotógrafos creditados tanto nas imagens dos cinco fios quanto nos registros de aproximação utilizados na obra. A ficha técnica também inclui dezenas de profissionais responsáveis pelas demais fotografias incorporadas à sinfonia.

O cotidiano ganhou alcance sem perder a origem

Ao longo de mais de três décadas de profissão, Paulo registrou acontecimentos políticos, sociais e culturais. A imagem que mais se expandiu para outras linguagens, contudo, nasceu fora de uma cobertura de grande repercussão.

Não havia cerimônia, conflito ou personagem público. Havia pássaros, fios elétricos e uma cena que podia passar despercebida para quem atravessasse a rua com pressa.

“Todo mundo via aqueles passarinhos. Eu vi uma fotografia. O Jarbas viu uma melodia. Cada um completou o olhar do outro”, resume.

Um instante pode continuar produzindo sentidos

A trajetória da fotografia evidencia como uma imagem documental pode ultrapassar sua função inicial sem deixar de registrar a realidade. O valor não surgiu de uma montagem posterior nem de uma cena preparada. Surgiu da observação.

A publicidade entrou no processo muitos anos depois e encontrou uma ideia já testada pela circulação cultural. Não criou a memória original, mas organizou sua expansão em escala maior.

Há também uma dimensão difícil de medir por troféus. Ao voltar ao lugar onde tudo começou, Paulo encontrou a paisagem, mas não as mesmas pessoas nem os mesmos pássaros. A fotografia passou então a cumprir outra função essencial do fotojornalismo, a de preservar um instante que o tempo já havia desmontado.

No fim, os pássaros não permaneceram nos fios. Permaneceram na imagem. E foi a partir dela que continuaram viajando.

Relacionadas, fontes e documentos:

Exposição no Rio debate mineração de lítio (Fonte em Foco)
Comunidade mantém fogueira de Xangô há mais de 150 anos (Fonte em Foco)
Exposição chinesa reúne 10 mil anos de história no Rio (Fonte em Foco)
Filme de Camurati questiona raízes da desigualdade (Fonte em Foco)
Culturas tradicionais ganham política nacional (Fonte em Foco)
– Projeto da Abradee conquista Leão de Ouro em Cannes (Abradee)
– Jarbas Agnelli do exercício de criatividade ao Leão de Ouro (Meio & Mensagem)
Fotografia feita há 17 anos inspira campanha vencedora do Leão de Ouro (Agência Brasil)

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