Festejo gratuito transforma memória familiar em encontro comunitário
Moradores de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, poderão participar nesta segunda-feira (29) de uma celebração que atravessa gerações de uma mesma família e hoje mobiliza toda uma comunidade. O Festejo Junino do Quilombo Mineiro Pau começa às 17h, com entrada gratuita, apresentações culturais, atividades para crianças e o tradicional acendimento da Fogueira de Xangô.
A programação será realizada na Travessa Aurora, 157, sede da Obra Social Filhos da Razão e Justiça e do Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo Kabiúna do Sertão.
A celebração reúne elementos das festas juninas, da religiosidade de matriz africana e da memória de pessoas negras que preservaram seus vínculos culturais mesmo diante da escravidão, da perseguição religiosa e das transformações sociais ocorridas no país.
Fogueira nasceu de uma tradição familiar
A história transmitida pela família Madeira atribui o início da tradição a Manoel Caetano Madeira, homem negro nascido escravizado em 1841, no município de Paraíba do Sul, no interior do estado do Rio de Janeiro.
Segundo o relato familiar preservado por seu bisneto, Fausto Manoel Madeira Neto, Manoel trabalhou em fazendas de café e viveu sob o regime da escravidão até aproximadamente os 41 anos.
Mesmo sem liberdade para manifestar abertamente suas crenças, teria mantido o costume de acender uma fogueira em 29 de junho, data dedicada no calendário católico a São Pedro e São Paulo.
Na tradição religiosa desenvolvida pela família, a celebração também se relacionava a Xangô, orixá associado à justiça, ao fogo, ao trovão e à autoridade.
“Ele chama de fogueira de São Pedro e São Paulo, mas, intrinsecamente, está acendendo uma fogueira para Xangô e fazendo os seus fundamentos”, explica Fausto.
O relato mostra como práticas religiosas africanas e afro-brasileiras puderam ser preservadas sob símbolos aceitos publicamente em períodos de repressão.
Celebração chegou a Santa Cruz após mudança da família
Manoel Caetano Madeira morreu em 1946, aos 105 anos, segundo a memória familiar. A responsabilidade de manter o acendimento passou para seu filho, Fausto Manoel Madeira.
Ao se mudar para Santa Cruz, ele levou consigo a tradição e continuou preparando a fogueira no quintal de casa.
Depois de sua morte, em 1988, a celebração passou a ser conduzida por Fausto Manoel Madeira Neto, que também ingressou na umbanda e incorporou a prática aos fundamentos religiosos do terreiro.
A transmissão entre bisavô, avô e bisneto transformou um costume doméstico em uma referência coletiva para os moradores do Mineiro Pau.
“Foi a maior e mais bela herança que ele me deixou, a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho dele”, afirma Fausto Neto.
Hoje, ele pretende transmitir o compromisso aos filhos Pedro, Aline e Júlia e às próximas gerações.
Tradição religiosa também preserva a memória negra
O acendimento da fogueira ocorre em um país no qual terreiros e praticantes de religiões de matriz africana enfrentaram perseguição policial, apreensão de objetos sagrados e criminalização de suas práticas.
Nesse contexto, a continuidade da celebração adquiriu um significado que ultrapassa a devoção familiar.
Para a comunidade, a fogueira passou a representar pertencimento, ancestralidade e resistência cultural. As histórias compartilhadas ao redor do fogo ajudam a manter referências que poderiam ter sido apagadas pela escravidão, pelo racismo e pela intolerância religiosa.
A expressão “patrimônio vivo”, usada pelos organizadores, descreve esse valor cultural e comunitário. Não significa, contudo, que a celebração tenha recebido formalmente um registro de patrimônio imaterial pelos órgãos responsáveis.
O reconhecimento mais concreto está na permanência da prática e na participação das famílias que voltam a se reunir a cada 29 de junho.
Terreiro ampliou atuação cultural e social
A celebração é promovida pelo Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo Kabiúna do Sertão e pela Obra Social Filhos da Razão e Justiça.
Fundada em 2016, a organização desenvolve projetos voltados a crianças, adolescentes, jovens e famílias da comunidade. As atividades abrangem educação antirracista, música, dança, leitura, escrita, Libras, saúde preventiva e distribuição de refeições.
O trabalho utiliza as manifestações culturais como instrumentos de formação e fortalecimento da identidade.
A fogueira ocupa posição central nessa estrutura. Ao reunir moradores, visitantes e diferentes gerações, o festejo conecta o fundamento religioso do terreiro às ações sociais desenvolvidas durante o ano.
“Somos um terreiro e fazemos um trabalho voltado para o fortalecimento da cultura antirracista, da educação e do trabalho social”, afirma Fausto.
Dança do Mineiro Pau envolve crianças da comunidade
Uma das atrações do festejo será a Dança do Mineiro Pau, manifestação popular na qual os participantes executam movimentos em pares ou em roda enquanto batem bastões de madeira de forma ritmada.
A prática possui registros em diferentes regiões do Sudeste e recebeu características próprias em cada território. Na comunidade de Santa Cruz, foi incorporada à memória negra local e deu nome ao lugar onde as famílias vivem.
Fausto participou da dança há cerca de 40 anos e trabalhou para recuperar a manifestação com crianças e adolescentes.
A Obra Social mantém oficinas e o Grupo de Dança Mineiro Pau Valdemar Madalena, que já participou de eventos culturais dentro e fora da Zona Oeste.
A retomada permite que os mais jovens aprendam movimentos, músicas e histórias que não costumam aparecer nos conteúdos escolares tradicionais.
O festejo também terá apresentação de jongo, expressão afro-brasileira marcada por tambores, canto, dança em roda e versos improvisados.
Festa reúne religiosidade e cultura popular
A programação aproxima tradições que, no cotidiano da comunidade, não aparecem como universos separados.
Bandeirinhas, comidas típicas e elementos das festas juninas convivem com referências a Xangô, jongo, ancestralidade e educação antirracista.
As crianças participam das apresentações, das atividades recreativas e da preparação do espaço. Para os organizadores, esse envolvimento é parte do processo de transmissão cultural.
“É uma festa muito esperada. As crianças ficam aguardando, montam as bandeirinhas e reverenciam Xangô e os santos São Pedro e São Paulo”, relata Fausto.
O evento é aberto ao público e busca aproximar visitantes da produção cultural existente em Santa Cruz, região frequentemente afastada dos circuitos mais conhecidos do Rio de Janeiro.
Memória oral exige preservação e documentação
A continuidade da fogueira mostra a força da transmissão familiar, mas também expõe a fragilidade das histórias sustentadas quase exclusivamente pela memória oral.
Relatos de pessoas negras escravizadas, de suas famílias e de comunidades periféricas foram pouco registrados por instituições oficiais. Muitas trajetórias sobreviveram porque alguém decidiu repeti-las, ensiná-las e transformá-las em celebração.
Documentar essas memórias não significa substituir a palavra dos descendentes. Significa criar condições para que registros, fotografias, depoimentos e pesquisas permaneçam disponíveis às próximas gerações.
A Fogueira de Xangô atravessou mais de um século porque foi assumida como responsabilidade familiar e comunitária.
Enquanto houver pessoas reunidas ao redor da chama, a celebração continuará narrando uma história que os documentos oficiais nem sempre souberam ou quiseram guardar.
Festejo Junino do Quilombo Mineiro Pau
Data
29 de junho de 2026
Horário
A partir das 17h
Local
Quilombo Urbano Mineiro Pau
Endereço
Travessa Aurora, 157, Santa Cruz, Rio de Janeiro
Entrada
Gratuita
Programação
Fogueira de Xangô, Dança do Mineiro Pau, jongo, música popular, comidas típicas, atividades infantis e celebração da ancestralidade
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