Motores e movimentação de banhistas podem encobrir sinais usados na reprodução, alimentação e defesa de território
O barulho produzido por embarcações recreativas, motos aquáticas e atividades turísticas está associado à redução dos sons de peixes em recifes de coral do litoral de Pernambuco.
Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco identificaram menor ocorrência de vocalizações e menor complexidade acústica nos pontos mais expostos à presença humana. Parte dos sinais pode ter sido encoberta pelo ruído, enquanto alguns peixes também podem ter reduzido ou alterado sua atividade sonora.
A interferência preocupa porque diferentes espécies utilizam sons durante comportamentos ligados à reprodução, alimentação, defesa de território, detecção de predadores e interação em grupo.
O estudo foi publicado na revista científica Neotropical Ichthyology e analisou recifes das praias de Carneiros e Tamandaré, em duas áreas marinhas protegidas do litoral pernambucano.
Peixes produziram menos sons nos locais ruidosos
Os pesquisadores identificaram nove tipos distintos de sons atribuídos aos peixes. A ocorrência desses sinais diminuiu nas áreas mais ruidosas, e três tipos não foram detectados nos pontos diretamente expostos às atividades humanas.
Os locais com maior ruído também apresentaram redução no Índice de Complexidade Acústica, indicador utilizado para medir a variação dos sons ao longo do tempo.
A exposição às fontes sonoras humanas foi a variável mais fortemente relacionada à perda de complexidade da paisagem acústica, acima de fatores ambientais como temperatura e profundidade.
Os resultados não demonstram necessariamente que todos os peixes deixaram de emitir os sinais. Em parte dos registros, o som pode ter continuado a ser produzido, mas ficado difícil de detectar porque motores e outras fontes ocupavam frequências semelhantes.
Mascaramento impede que sinais sejam percebidos
Grande parte dos sons dos peixes recifais analisados ocorre em frequências baixas, geralmente entre 0,05 e 2 quilohertz.
Barcos, motos aquáticas e outras atividades turísticas também produzem energia sonora nessa faixa. Quando os ruídos se sobrepõem, ocorre o chamado mascaramento acústico.
O fenômeno funciona como uma conversa encoberta por uma máquina barulhenta. O sinal continua existindo, mas pode não chegar de forma clara ao animal que deveria recebê-lo.
Essa interferência pode dificultar a localização de parceiros, a defesa de áreas de alimentação e a percepção de ameaças. O ruído também pode provocar estresse ou alterações na frequência e no ritmo das vocalizações.
O artigo, entretanto, não acompanhou diretamente taxas de reprodução, alimentação ou sobrevivência. Os pesquisadores apontam esses efeitos como riscos biológicos plausíveis que precisarão ser medidos em novos experimentos.
Pesquisa acumulou 80 horas de gravações
O trabalho de campo foi realizado em quatro pontos recifais, dois em Carneiros e dois em Tamandaré.
Em cada praia, os pesquisadores compararam uma área exposta, situada perto da costa e mais sujeita às atividades turísticas, com outra abrigada pela estrutura do próprio recife.
Foram realizadas oito sessões de monitoramento, cada uma com dez horas contínuas de gravação, das 7h às 17h. O conjunto totalizou 80 horas de dados acústicos.
Um hidrofone submerso captou os sons, enquanto um observador na superfície registrou as atividades humanas capazes de produzir ruído na água.
As coletas ocorreram entre janeiro e fevereiro de 2022, durante a alta temporada, e em abril de 2023, período de demanda turística intermediária.
Mergulhadores também contaram os peixes
Além das gravações, mergulhadores realizaram censos visuais simultâneos para estimar a abundância, a diversidade e o tamanho dos peixes.
Os levantamentos foram feitos em faixas de 10 metros por 5 metros nos mesmos pontos do monitoramento acústico.
Essa comparação permitiu verificar que áreas ruidosas ainda mantinham diversidade de espécies capazes de produzir sons. Mesmo assim, a frequência das vocalizações registradas era menor.
A constatação reduz a possibilidade de que o silêncio decorresse apenas da ausência de peixes. Ela reforça as hipóteses de mascaramento ou mudança comportamental, embora o estudo não consiga separar completamente os dois mecanismos.
Carneiros enfrenta turismo intenso durante todo o ano
A Praia dos Carneiros está inserida na Área de Proteção Ambiental de Guadalupe e recebe fluxo turístico elevado ao longo de todo o ano.
Tamandaré integra a Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais e apresenta atividade mais sazonal, com concentração de visitantes durante o verão.
A diferença permitiu comparar recifes submetidos a padrões distintos de ocupação e uso turístico.
Nas duas regiões, as formações recifais ficam próximas da costa, o que amplia a exposição a embarcações, motos aquáticas e grande quantidade de visitantes.
A proximidade também aumenta a relevância econômica dos recifes, utilizados para passeios, banho, pesca e outras atividades relacionadas ao turismo.
Peixes mantêm funções essenciais para os recifes
Peixes recifais ajudam a controlar algas, redistribuir nutrientes, remover sedimentos e manter o equilíbrio das cadeias alimentares.
Algumas espécies contribuem para impedir que algas ocupem áreas necessárias ao crescimento dos corais. Outras controlam populações de presas ou movimentam sedimentos ao procurar alimento.
Mudanças persistentes no comportamento desses animais podem afetar funções ecológicas que sustentam o próprio recife.
A relação não é imediata nem uniforme. O estudo não demonstrou que o ruído já provocou degradação mensurável dos corais pernambucanos, mas identificou uma pressão capaz de interferir na comunicação de espécies que participam da manutenção do ecossistema.
Paisagem sonora pode indicar condição ambiental
A paisagem sonora marinha reúne três grandes componentes.
A biofonia corresponde aos sons produzidos por organismos, como peixes e invertebrados. A geofonia inclui ondas, chuva e vento. A antropofonia reúne os ruídos gerados por atividades humanas.
Ambientes biologicamente ativos costumam apresentar padrões sonoros diversos, embora um índice acústico isolado não seja suficiente para definir se um recife está saudável.
No estudo, os pontos menos impactados exibiram dois picos principais de energia associados à biofonia. Nas áreas mais ruidosas, os espectros ficaram mais uniformes e o pico de baixa frequência deixou de ser evidente.
O monitoramento acústico passivo pode complementar mergulhos e levantamentos visuais porque permite registrar longos períodos sem interferência direta dos pesquisadores.
Resultado pode se repetir em outros recifes
As conclusões foram obtidas em duas praias de Pernambuco e não podem ser automaticamente transferidas, na mesma intensidade, para todo o litoral brasileiro.
O risco, contudo, não é restrito a esses locais.
Recifes expostos a tráfego intenso de embarcações, turismo náutico e outras fontes de ruído nas frequências utilizadas pelos peixes podem enfrentar interferências semelhantes.
A magnitude depende da quantidade e do tipo de embarcação, da distância da costa, da estrutura do recife e das espécies presentes.
Novos estudos serão necessários para verificar os efeitos em áreas como Abrolhos, Fernando de Noronha e outros sistemas recifais brasileiros.
Não há limite universal de ruído para proteger peixes
Ainda não existe um limite universalmente aceito que defina níveis seguros de ruído para todas as espécies de peixes e ambientes recifais.
A diversidade biológica dificulta uma regra única. Espécies utilizam frequências diferentes, apresentam sensibilidades distintas e respondem de formas variadas ao mesmo estímulo.
Também é necessário distinguir ruídos breves de exposições contínuas. A passagem isolada de uma embarcação não produz necessariamente o mesmo impacto de tráfego repetido durante todo o dia.
Os pesquisadores defendem que novos trabalhos meçam a relação entre sinal e ruído, os limites de detecção e as respostas dos peixes sob condições controladas.
Turismo pode adotar medidas de redução
O estudo não propõe interromper o turismo nas áreas protegidas. Os resultados indicam a necessidade de incorporar o componente acústico ao manejo.
Entre as medidas possíveis estão:
- organizar rotas de embarcações;
- afastar motores de zonas recifais sensíveis;
- reduzir a velocidade em áreas rasas;
- limitar a concentração simultânea de veículos;
- definir horários de menor perturbação;
- monitorar continuamente a paisagem sonora;
- orientar operadores turísticos e visitantes.
A redução da velocidade tende a diminuir tanto a intensidade do ruído quanto o risco de colisões com animais e usuários.
A definição das regras deve considerar dados locais e participação de gestores, comunidades, pescadores e empresas que dependem economicamente dos recifes.
Conservação também depende do que ocorre sob a água
A poluição sonora costuma receber menos atenção que lixo, esgoto, pesca predatória e aquecimento dos oceanos porque não permanece visível depois que a embarcação passa.
Sob a superfície, porém, o som se propaga por grandes distâncias e ocupa um canal essencial para a comunicação dos animais.
O estudo mostra que uma área pode continuar com peixes visíveis e, ao mesmo tempo, apresentar uma paisagem sonora empobrecida.
Proteger os recifes exige avaliar não apenas o número de visitantes, mas onde as embarcações circulam, quanto ruído produzem e por quanto tempo os animais ficam expostos.
A atividade turística depende da biodiversidade que atrai o público. Preservar o ambiente acústico é parte da proteção desse patrimônio e da própria continuidade econômica das comunidades costeiras.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Brasil pode ter 127 dias de calor extremo até 2075 (Fonte em Foco)
– Amazônia tem menor alerta de desmatamento em 20 anos (Fonte em Foco)
– El Niño pode ser um dos mais fortes desde 1950 (Fonte em Foco)
– Brasil tem 213 barragens sob atenção prioritária (Fonte em Foco)
– Incêndios têm menor emissão global em 24 anos (Fonte em Foco)
– Reef fish biophony under tourism-driven sound pollution in Northeastern Brazil (Neotropical Ichthyology)
– Barulho de barco e de turistas afeta comunicação de peixes, diz estudo (Agência Brasil)

