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Entidades cobram mudanças no Redata antes da votação

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Organizações da sociedade civil dizem que incentivo a data centers precisa de transparência, salvaguardas ambientais e contrapartidas para soberania digital

Organizações da sociedade civil, sindicatos, pesquisadores e movimentos sociais divulgaram uma nota pública contra o avanço do Redata, projeto que cria incentivos fiscais para a instalação e ampliação de data centers no Brasil.

O alvo da crítica é o PL 278/2026, que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter. A proposta já passou pela Câmara dos Deputados e entrou na pauta do Senado nesta semana.

As entidades afirmam que o Brasil precisa discutir melhor o tema antes de conceder benefícios tributários a grandes empresas de tecnologia. Para elas, soberania digital não se resume a colocar servidores em território nacional. Também envolve capacidade científica, governança de dados, autonomia energética, proteção ambiental e participação social.

O que é o Redata

O Redata é uma proposta de regime especial de tributação para data centers.

Na prática, o projeto suspende tributos federais sobre a venda e a importação de componentes eletrônicos e produtos de tecnologia da informação usados nessas estruturas. A lista inclui Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e Imposto sobre Produtos Industrializados.

A justificativa dos defensores do texto é atrair investimentos, fortalecer a economia digital e reduzir a dependência do Brasil de infraestrutura estrangeira para processamento de dados e inteligência artificial.

Data centers são grandes estruturas de computação. Eles armazenam dados, processam sistemas, sustentam serviços de nuvem e ajudam a operar ferramentas de inteligência artificial. Em uma economia cada vez mais digital, esses centros viraram infraestrutura estratégica.

Por que as entidades criticam o projeto

As organizações que assinam a nota não dizem ser contrárias ao desenvolvimento tecnológico ou à construção de infraestrutura digital no Brasil.

A crítica central está na ordem das decisões. Para as entidades, o país estaria começando pelo incentivo fiscal antes de definir regras robustas sobre território, água, energia, impacto ambiental, participação das comunidades e contrapartidas das empresas beneficiadas.

O documento afirma que as negociações avançaram sem transparência suficiente e sem participação efetiva de organizações que estudam o tema.

Essa é a contradição apontada pela nota: uma política apresentada como instrumento de soberania digital estaria sendo discutida de forma acelerada e pouco aberta ao escrutínio público.

Data centers consomem água, energia e território

O debate sobre data centers não é apenas tecnológico.

Essas estruturas exigem grande capacidade elétrica, sistemas de resfriamento, segurança, conectividade, áreas físicas adequadas e disponibilidade de água em determinados modelos de operação. Por isso, o local onde são instaladas importa.

O próprio Senado reconhece que, nas audiências públicas sobre o tema, especialistas apontaram oportunidades para o Brasil, mas também alertaram para o alto consumo de energia e água e para os impactos ambientais.

A nota das entidades vai nessa direção. O texto sustenta que critérios genéricos de sustentabilidade não substituem salvaguardas socioambientais robustas, licenciamento adequado, transparência sobre consumo de recursos naturais e participação das comunidades afetadas.

O que o texto prevê como contrapartida

O PL 278/2026 prevê exigências para as empresas beneficiadas.

Entre elas estão o uso de energia limpa ou renovável e a apresentação de índice de eficiência hídrica no uso de água para resfriamento dos equipamentos igual ou inferior a 0,05 litro por quilowatt-hora em aferição anual.

O projeto também obriga empresas beneficiadas a realizar investimentos no país equivalentes a parte do valor dos produtos adquiridos com benefício fiscal e a reservar parcela dos serviços dos data centers para o mercado interno.

Para os defensores do texto, essas contrapartidas ajudam a vincular o incentivo público ao desenvolvimento tecnológico nacional.

Para as entidades críticas, porém, as exigências ainda não são suficientes. O argumento é que benefícios fiscais podem transferir ao país os custos ambientais, energéticos e territoriais sem garantir autonomia tecnológica proporcional.

Soberania digital virou o centro da disputa

A disputa em torno do Redata mostra que soberania digital virou uma expressão disputada.

Para o governo e apoiadores da proposta, instalar data centers no Brasil pode reduzir a dependência externa e fortalecer a infraestrutura necessária para inteligência artificial, serviços digitais e processamento de dados.

Para as entidades críticas, essa visão é incompleta. Servidores em território brasileiro não bastam se a infraestrutura for controlada por grandes grupos globais, se os dados seguirem dependentes de plataformas estrangeiras e se o país não desenvolver capacidade própria de tecnologia, pesquisa e governança.

A pergunta de fundo é simples, mas difícil: o Brasil está criando autonomia digital ou apenas oferecendo incentivos para hospedar infraestrutura de grandes empresas?

Ceará aparece como exemplo de alerta

A nota pública cita o Ceará como exemplo concreto dos riscos associados à expansão de data centers.

Segundo as entidades, há questionamentos sobre licenciamento ambiental, consulta prévia a comunidades afetadas e impactos sobre água, energia e território em empreendimentos no estado.

O documento também menciona o fato de o relator do projeto no Senado, Cid Gomes, ser do Ceará, estado onde esse debate já aparece com força.

Esse ponto não encerra a discussão nacional, mas mostra por que a localização dos data centers importa. Infraestrutura digital parece invisível para o usuário que acessa uma nuvem no celular. Mas ela ocupa território real, consome recursos reais e produz conflitos reais quando chega a uma região sem debate suficiente.

Proposta substitui caminho iniciado por medida provisória

A criação do Redata havia sido prevista inicialmente em medida provisória, mas a MP perdeu validade por não ter sido votada pelo Congresso dentro do prazo.

Para manter a proposta em tramitação, o tema foi reapresentado como projeto de lei. O PL 278/2026 foi aprovado pela Câmara dos Deputados e enviado ao Senado.

Nesta semana, a matéria entrou na pauta do Plenário. O texto será relatado pelo senador Cid Gomes.

Essa tramitação acelerada é um dos pontos de preocupação das organizações. Para elas, um projeto com impacto fiscal, ambiental, tecnológico e territorial não deveria avançar sem mais tempo de debate público.

O custo fiscal também entra na conta

O Redata envolve renúncia de receita.

Segundo estimativa apresentada no debate legislativo, a isenção pode chegar a R$ 5,2 bilhões ainda neste ano e a R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos seguintes.

Quando o Estado abre mão de arrecadação, a pergunta pública precisa ser direta: qual retorno o país recebe em troca?

Esse retorno pode vir em investimento, emprego, inovação, segurança de dados, desenvolvimento regional e capacidade tecnológica. Mas, para ser defensável, precisa estar previsto com clareza, ser fiscalizável e produzir benefício público proporcional ao incentivo concedido.

O que as entidades pedem

As organizações pedem que o Redata não avance sob lógica de urgência.

A nota defende que o país construa antes uma política pública para data centers baseada em planejamento territorial, proteção socioambiental, participação social e soberania.

As entidades também cobram transparência nas negociações, avaliação de impactos cumulativos, auditorias independentes, licenciamento adequado, consulta prévia quando houver comunidades afetadas e contrapartidas efetivas para o desenvolvimento brasileiro.

O centro da reivindicação é que a política pública não seja apenas uma porta de entrada para investimento privado. Ela precisa dizer onde, como, com que limite e com que retorno esses empreendimentos devem operar.

O que está em jogo para o cidadão

O Redata pode parecer um tema distante da vida comum, mas não é.

Data centers sustentam aplicativos, serviços públicos digitais, bancos, inteligência artificial, armazenamento em nuvem, exames, compras online, comunicação e sistemas que fazem parte da rotina de milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, essa infraestrutura depende de energia, água, território, regulação, incentivos fiscais e decisões políticas. Ou seja: mesmo quando o cidadão não vê um data center, ele pode pagar parte da conta pública, sentir impactos ambientais ou depender da qualidade das regras que protegem seus dados e serviços.

Por isso, o debate não pode ficar restrito a governo, Parlamento e empresas. A sociedade precisa compreender o que está sendo concedido, o que será exigido em troca e quem será afetado pelas escolhas feitas agora.

O que o Redata revela sobre tecnologia e poder

O Redata revela uma mudança importante: infraestrutura digital virou política de Estado.

Durante muito tempo, falar de tecnologia parecia falar apenas de inovação, velocidade e modernização. Agora, a discussão ficou mais concreta. Quem controla servidores? Onde ficam os dados? Quanta água e energia essa infraestrutura consome? Que comunidades são afetadas? Quanto imposto o país abre mão? Que autonomia real isso produz?

A resposta não cabe em slogans.

O Brasil pode ter interesse legítimo em atrair data centers e reduzir dependências externas. Também pode ter razões legítimas para exigir mais transparência, proteção ambiental e contrapartidas antes de conceder benefícios fiscais.

O ponto decisivo é não confundir pressa com estratégia. Uma política de soberania digital precisa ser debatida com a mesma seriedade que promete entregar. Se a infraestrutura vai moldar o futuro do país, a decisão sobre ela não pode parecer um arquivo escondido em uma nuvem que ninguém consegue abrir.

Relacionadas, fontes e documentos:

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