Publicidade
InícioBrasilPolíticaEntidades cobram mudanças no Redata antes da votação

Entidades cobram mudanças no Redata antes da votação

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

Cobertura relacionada

Festival gratuito no Rio mostra que matemática é pop

Festival Nacional da Matemática ocupa a Marina da Glória até domingo com entrada gratuita, jogos, teatro e experiências.

PEC da Segurança vai à CCJ com texto da Câmara mantido

PEC Segurança entra na pauta da CCJ do Senado com texto da Câmara preservado e mudanças no pacto federativo. Entenda os principais pontos.

Dino anula emendas de dirigentes sem mandato

Ministro do STF determina nulidade de emendas indicadas por presidentes de partidos sem mandato e ex-parlamentares.

Reservatórios do DF passam de 89% durante estiagem

Descoberto e Santa Maria registram níveis elevados em agosto, acima de 2025, mas gestão hídrica exige consumo responsável.

TSE busca definir critério para julgar deepfake nas eleições

TSE discute tese para definir deepfake nas eleições de 2026 e diferenciar conteúdo sintético de manipulação enganosa.

COP17 busca financiamento contra desertificação

COP17 entra em semana decisiva com foco em financiamento A...
Publicidade

Organizações da sociedade civil dizem que incentivo a data centers precisa de transparência, salvaguardas ambientais e contrapartidas para soberania digital

Organizações da sociedade civil, sindicatos, pesquisadores e movimentos sociais divulgaram uma nota pública contra o avanço do Redata, projeto que cria incentivos fiscais para a instalação e ampliação de data centers no Brasil.

O alvo da crítica é o PL 278/2026, que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter. A proposta já passou pela Câmara dos Deputados e entrou na pauta do Senado nesta semana.

As entidades afirmam que o Brasil precisa discutir melhor o tema antes de conceder benefícios tributários a grandes empresas de tecnologia. Para elas, soberania digital não se resume a colocar servidores em território nacional. Também envolve capacidade científica, governança de dados, autonomia energética, proteção ambiental e participação social.

O que é o Redata

O Redata é uma proposta de regime especial de tributação para data centers.

Na prática, o projeto suspende tributos federais sobre a venda e a importação de componentes eletrônicos e produtos de tecnologia da informação usados nessas estruturas. A lista inclui Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e Imposto sobre Produtos Industrializados.

A justificativa dos defensores do texto é atrair investimentos, fortalecer a economia digital e reduzir a dependência do Brasil de infraestrutura estrangeira para processamento de dados e inteligência artificial.

Data centers são grandes estruturas de computação. Eles armazenam dados, processam sistemas, sustentam serviços de nuvem e ajudam a operar ferramentas de inteligência artificial. Em uma economia cada vez mais digital, esses centros viraram infraestrutura estratégica.

Por que as entidades criticam o projeto

As organizações que assinam a nota não dizem ser contrárias ao desenvolvimento tecnológico ou à construção de infraestrutura digital no Brasil.

A crítica central está na ordem das decisões. Para as entidades, o país estaria começando pelo incentivo fiscal antes de definir regras robustas sobre território, água, energia, impacto ambiental, participação das comunidades e contrapartidas das empresas beneficiadas.

O documento afirma que as negociações avançaram sem transparência suficiente e sem participação efetiva de organizações que estudam o tema.

Essa é a contradição apontada pela nota: uma política apresentada como instrumento de soberania digital estaria sendo discutida de forma acelerada e pouco aberta ao escrutínio público.

Data centers consomem água, energia e território

O debate sobre data centers não é apenas tecnológico.

Essas estruturas exigem grande capacidade elétrica, sistemas de resfriamento, segurança, conectividade, áreas físicas adequadas e disponibilidade de água em determinados modelos de operação. Por isso, o local onde são instaladas importa.

O próprio Senado reconhece que, nas audiências públicas sobre o tema, especialistas apontaram oportunidades para o Brasil, mas também alertaram para o alto consumo de energia e água e para os impactos ambientais.

A nota das entidades vai nessa direção. O texto sustenta que critérios genéricos de sustentabilidade não substituem salvaguardas socioambientais robustas, licenciamento adequado, transparência sobre consumo de recursos naturais e participação das comunidades afetadas.

O que o texto prevê como contrapartida

O PL 278/2026 prevê exigências para as empresas beneficiadas.

Entre elas estão o uso de energia limpa ou renovável e a apresentação de índice de eficiência hídrica no uso de água para resfriamento dos equipamentos igual ou inferior a 0,05 litro por quilowatt-hora em aferição anual.

O projeto também obriga empresas beneficiadas a realizar investimentos no país equivalentes a parte do valor dos produtos adquiridos com benefício fiscal e a reservar parcela dos serviços dos data centers para o mercado interno.

Para os defensores do texto, essas contrapartidas ajudam a vincular o incentivo público ao desenvolvimento tecnológico nacional.

Para as entidades críticas, porém, as exigências ainda não são suficientes. O argumento é que benefícios fiscais podem transferir ao país os custos ambientais, energéticos e territoriais sem garantir autonomia tecnológica proporcional.

Soberania digital virou o centro da disputa

A disputa em torno do Redata mostra que soberania digital virou uma expressão disputada.

Para o governo e apoiadores da proposta, instalar data centers no Brasil pode reduzir a dependência externa e fortalecer a infraestrutura necessária para inteligência artificial, serviços digitais e processamento de dados.

Para as entidades críticas, essa visão é incompleta. Servidores em território brasileiro não bastam se a infraestrutura for controlada por grandes grupos globais, se os dados seguirem dependentes de plataformas estrangeiras e se o país não desenvolver capacidade própria de tecnologia, pesquisa e governança.

A pergunta de fundo é simples, mas difícil: o Brasil está criando autonomia digital ou apenas oferecendo incentivos para hospedar infraestrutura de grandes empresas?

Ceará aparece como exemplo de alerta

A nota pública cita o Ceará como exemplo concreto dos riscos associados à expansão de data centers.

Segundo as entidades, há questionamentos sobre licenciamento ambiental, consulta prévia a comunidades afetadas e impactos sobre água, energia e território em empreendimentos no estado.

O documento também menciona o fato de o relator do projeto no Senado, Cid Gomes, ser do Ceará, estado onde esse debate já aparece com força.

Esse ponto não encerra a discussão nacional, mas mostra por que a localização dos data centers importa. Infraestrutura digital parece invisível para o usuário que acessa uma nuvem no celular. Mas ela ocupa território real, consome recursos reais e produz conflitos reais quando chega a uma região sem debate suficiente.

Proposta substitui caminho iniciado por medida provisória

A criação do Redata havia sido prevista inicialmente em medida provisória, mas a MP perdeu validade por não ter sido votada pelo Congresso dentro do prazo.

Para manter a proposta em tramitação, o tema foi reapresentado como projeto de lei. O PL 278/2026 foi aprovado pela Câmara dos Deputados e enviado ao Senado.

Nesta semana, a matéria entrou na pauta do Plenário. O texto será relatado pelo senador Cid Gomes.

Essa tramitação acelerada é um dos pontos de preocupação das organizações. Para elas, um projeto com impacto fiscal, ambiental, tecnológico e territorial não deveria avançar sem mais tempo de debate público.

O custo fiscal também entra na conta

O Redata envolve renúncia de receita.

Segundo estimativa apresentada no debate legislativo, a isenção pode chegar a R$ 5,2 bilhões ainda neste ano e a R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos seguintes.

Quando o Estado abre mão de arrecadação, a pergunta pública precisa ser direta: qual retorno o país recebe em troca?

Esse retorno pode vir em investimento, emprego, inovação, segurança de dados, desenvolvimento regional e capacidade tecnológica. Mas, para ser defensável, precisa estar previsto com clareza, ser fiscalizável e produzir benefício público proporcional ao incentivo concedido.

O que as entidades pedem

As organizações pedem que o Redata não avance sob lógica de urgência.

A nota defende que o país construa antes uma política pública para data centers baseada em planejamento territorial, proteção socioambiental, participação social e soberania.

As entidades também cobram transparência nas negociações, avaliação de impactos cumulativos, auditorias independentes, licenciamento adequado, consulta prévia quando houver comunidades afetadas e contrapartidas efetivas para o desenvolvimento brasileiro.

O centro da reivindicação é que a política pública não seja apenas uma porta de entrada para investimento privado. Ela precisa dizer onde, como, com que limite e com que retorno esses empreendimentos devem operar.

O que está em jogo para o cidadão

O Redata pode parecer um tema distante da vida comum, mas não é.

Data centers sustentam aplicativos, serviços públicos digitais, bancos, inteligência artificial, armazenamento em nuvem, exames, compras online, comunicação e sistemas que fazem parte da rotina de milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, essa infraestrutura depende de energia, água, território, regulação, incentivos fiscais e decisões políticas. Ou seja: mesmo quando o cidadão não vê um data center, ele pode pagar parte da conta pública, sentir impactos ambientais ou depender da qualidade das regras que protegem seus dados e serviços.

Por isso, o debate não pode ficar restrito a governo, Parlamento e empresas. A sociedade precisa compreender o que está sendo concedido, o que será exigido em troca e quem será afetado pelas escolhas feitas agora.

O que o Redata revela sobre tecnologia e poder

O Redata revela uma mudança importante: infraestrutura digital virou política de Estado.

Durante muito tempo, falar de tecnologia parecia falar apenas de inovação, velocidade e modernização. Agora, a discussão ficou mais concreta. Quem controla servidores? Onde ficam os dados? Quanta água e energia essa infraestrutura consome? Que comunidades são afetadas? Quanto imposto o país abre mão? Que autonomia real isso produz?

A resposta não cabe em slogans.

O Brasil pode ter interesse legítimo em atrair data centers e reduzir dependências externas. Também pode ter razões legítimas para exigir mais transparência, proteção ambiental e contrapartidas antes de conceder benefícios fiscais.

O ponto decisivo é não confundir pressa com estratégia. Uma política de soberania digital precisa ser debatida com a mesma seriedade que promete entregar. Se a infraestrutura vai moldar o futuro do país, a decisão sobre ela não pode parecer um arquivo escondido em uma nuvem que ninguém consegue abrir.

Relacionadas, fontes e documentos:

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.