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Violência política nas escolas: ameaças após eleição

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Estudantes são perseguidos por posições políticas, enquanto agressões, humilhações e ameaças atingem crianças e adolescentes em diferentes estados do Brasil

Violência política nas escolas chega a ameaças de morte após eleições de 2026

Uma ameaça de morte enviada por WhatsApp fez um adolescente de 17 anos deixar de frequentar as aulas no Distrito Federal. Em Santa Catarina, estudantes foram filmados agredindo colegas vestidos de vermelho. Em Minas Gerais, universitários bolsistas sofreram ofensas relacionadas ao voto e à condição econômica. Os episódios ganharam repercussão após o segundo turno das eleições presidenciais de 25 de outubro de 2026 e mostram como a violência política ultrapassou as disputas entre adultos para atingir também crianças e adolescentes.

O problema não se limita a quem apoia determinado candidato. Há relatos de perseguição contra estudantes identificados tanto com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto com Flávio Bolsonaro (PL). Fora das escolas, até uma criança de 9 anos que vendia balas para ajudar a família foi exposta publicamente a uma humilhação relacionada à escolha eleitoral de seus responsáveis.

Ameaça de morte no DF revela a gravidade da violência política entre estudantes

Felipe, de 17 anos, recebeu uma ameaça que transformou a rotina escolar em motivo de medo. Durante a apuração presidencial de 25 de outubro, um colega enviou áudios ao grupo de WhatsApp da turma, associando agressões à preferência política atribuída ao adolescente.

Em uma das mensagens, o estudante ameaçou: “Eu juro que amanhã se você for para a escola você não volta vivo”.

As intimidações não pararam aí. O mesmo adolescente anunciou que espancaria outros cinco colegas caso Flávio Bolsonaro perdesse a eleição. Também mencionou o uso de faca e fez ofensas de caráter religioso. Outro participante do grupo reagiu às mensagens com manifestações de aprovação e figurinhas de risadas.

O medo teve uma consequência imediata: Felipe passou a semana sem ir à escola. Sua mãe, identificada pelo nome fictício Aline, contou que o filho temia voltar às aulas mesmo depois das providências adotadas pela direção.

Felipe é um adolescente transgênero. Segundo Aline, ele nunca havia sofrido transfobia na instituição, o que tornou ainda mais inesperada a hostilidade motivada pela disputa eleitoral.

“A ideologia está afetando o discernimento dos jovens. Os adultos não conseguem lidar com as frustrações e ficam violentos e os jovens acabam absorvendo isso, transformam também a frustração em ódio”, afirmou a mãe.

A família também temia que uma denúncia formal provocasse novas retaliações. Até o momento do relato, mãe e filho não haviam registrado boletim de ocorrência, receosos da exposição do adolescente.

Conforme Aline, a diretora informou que o aluno responsável pelas ameaças havia sido transferido de escola. O colega que apoiou as mensagens recebeu suspensão de quatro dias.

A situação expõe uma dificuldade que vai além da aplicação de medidas disciplinares: como assegurar que um estudante ameaçado consiga voltar à escola sem medo de sofrer novas agressões?

Agressões em Santa Catarina e perseguição no DF mostram diferentes formas de intolerância

Em Itajaí, no litoral de Santa Catarina, a divergência política apareceu em imagens de agressão física dentro de uma escola. Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra dois estudantes usando bandeiras do Brasil como capas enquanto atacam colegas vestidos de vermelho.

Segundo a autora da gravação, os dois adolescentes teriam 15 anos. Além das agressões, eles teriam feito ofensas verbais e referências depreciativas ao Bolsa Família, programa de transferência de renda destinado a famílias em situação de vulnerabilidade.

O episódio associa símbolos políticos, aparência dos estudantes e condição socioeconômica a comportamentos de hostilidade.

No Distrito Federal, a perseguição também atingiu um estudante que havia manifestado apoio ao candidato derrotado. Um adolescente de 16 anos relatou ter sofrido hostilidade na escola depois de afirmar que votaria em Flávio Bolsonaro. A situação o levou a mudar de instituição de ensino.

Os dois casos ajudam a compreender uma característica importante desse tipo de violência: a posição política atribuída à vítima pode mudar, mas o mecanismo de intimidação permanece.

Quando a escolha eleitoral passa a determinar quem pode circular, estudar ou se expressar sem sofrer constrangimentos, a divergência deixa de ser apenas uma discussão de ideias.

Em Minas Gerais, preconceito político se mistura à condição econômica

Em Araguari, estudantes de medicina também foram alvo de ofensas relacionadas ao resultado eleitoral e à renda familiar. Os episódios envolveram alunos do Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos (Imepac).

Colegas bolsistas que haviam votado em Lula sofreram ataques verbais. As ofensas também alcançaram estudantes que vendiam trufas e outros produtos para ajudar a pagar despesas.

O caso acrescenta outra dimensão à violência política: a desqualificação de pessoas pela forma como sustentam os estudos ou pela necessidade de apoio financeiro.

A instituição divulgou uma nota repudiando “qualquer manifestação de intolerância ou discriminação, seja por convicções políticas ou por condição socioeconômica”.

A manifestação pública deixa evidente a posição institucional contrária às agressões. Para os estudantes atingidos, porém, o desafio cotidiano é continuar compartilhando salas, corredores e atividades acadêmicas com a segurança necessária à formação universitária.

Menino de 9 anos é humilhado por voto da família em Fortaleza

Em Fortaleza, a disputa eleitoral atingiu uma criança que sequer tinha idade para votar. Matheus, de 9 anos, autista, vendia balas para ajudar nas despesas da avó quando foi abordado por Valéria Diniz, influenciadora digital que havia declarado apoio a Flávio Bolsonaro.

A abordagem aconteceu em um bar, onde a influenciadora estava acompanhada de amigas.

Enquanto gravava, Valéria perguntou ao menino em quem sua família havia votado. Ele respondeu que os familiares escolheram Lula.

A influenciadora pediu que Matheus fizesse o gesto de L com a mão. Quando ele atendeu, ela e as amigas começaram a rir e se recusaram a comprar os produtos.

O vídeo foi divulgado com a legenda: “Vai na mamãe e manda ela fazer o L”.

A situação ganhou repercussão não apenas pela exposição da criança, mas pelas circunstâncias de sua vida. Matheus é criado pela avó desde a morte da mãe. Os dois vivem na periferia de Fortaleza, e a venda de balas contribui para as despesas da família.

Depois da divulgação das imagens, motociclistas e usuários das redes sociais organizaram iniciativas de apoio ao menino e à avó.

A mobilização solidária mostrou uma reação diferente àquela registrada no vídeo. Mas também evidenciou o contraste entre uma criança tentando obter renda para a família e adultos transformando sua situação em motivo de constrangimento político.

Da disputa eleitoral à vida cotidiana: uma violência que atravessa diferentes espaços

A intimidação de estudantes se soma a episódios de violência política registrados em outras áreas da sociedade brasileira. A diferença é que, nos casos envolvendo crianças e adolescentes, a disputa alcança pessoas que ainda estão em formação e dependem de adultos e instituições para sua proteção.

O Fonte em Foco já mostrou que o Brasil registrava um caso de violência política a cada 44 horas. O levantamento oferecia um panorama de agressões, ameaças e outras práticas relacionadas à participação política.

A discussão também envolve quem se torna mais vulnerável quando diferentes formas de discriminação se sobrepõem. Essa dimensão já aparecia na cobertura sobre a violência política que atinge mulheres pretas e pardas e nos episódios de violência política contra os Guarani Kaiowá em Mato Grosso do Sul.

A hostilidade pode assumir formas distintas conforme o ambiente e a posição ocupada pela vítima. No cenário institucional, denúncias como a violência política de gênero relatada por uma vereadora em Santa Maria mostram conflitos envolvendo representantes eleitos. Na esfera digital, ataques contra candidaturas LGBT+ nas eleições de 2026 revelaram outra frente de exposição e intimidação.

A escalada de hostilidade também apareceu em situações que alcançaram diferentes setores. O Fonte em Foco acompanhou as ameaças a ministros do Supremo Tribunal Federal, episódios de intolerância religiosa no Brasil e a discussão sobre ataques a imagens religiosas que motivaram providências de Flávio Dino.

Depois da votação, os efeitos da polarização também chegaram às relações econômicas, como mostrou a reportagem sobre o boicote político que expôs empresas e trabalhadores após a eleição.

Os relatos envolvendo escolas acrescentam uma preocupação a esse histórico: o conflito político pode afetar diretamente o direito de aprender, conviver e permanecer no ambiente educacional.

O que a legislação garante às crianças e aos adolescentes

A proteção contra violência e discriminação não depende da escolha política de uma criança, de um adolescente ou de sua família. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituído pela Lei nº 8.069 de 1990, estabelece direitos que devem ser respeitados independentemente de convicções pessoais.

O artigo 5º proíbe negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão contra crianças e adolescentes. O Estatuto também assegura o respeito à integridade física, psíquica e moral e à dignidade desses públicos.

Essas garantias alcançam situações de agressão física, ameaça, humilhação e outras condutas capazes de comprometer a proteção de estudantes.

A escola tem responsabilidade na prevenção e no enfrentamento da violência. Isso inclui acolher relatos, adotar providências de proteção e encaminhar situações que exijam atuação da rede de garantia de direitos.

O Ministério da Educação orienta estudantes que vivenciam violência ou discriminação a procurar professores, gestores de confiança, familiares ou canais formais da rede de ensino.

Quando houver ameaça ou violação de direitos, também é possível recorrer ao Conselho Tutelar e ao Disque 100, serviço gratuito que recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive de maneira anônima.

O atendimento funciona 24 horas por dia. Em situações de perigo imediato, a prioridade deve ser acionar os serviços de emergência e assegurar a proteção da vítima.

O que a violência entre estudantes revela sobre a convivência democrática

Os episódios mostram que a violência política não termina quando as urnas são fechadas. Ela pode continuar nas relações entre colegas, nas mensagens de celular, nas salas de aula e até em situações corriqueiras, como a venda de balas por uma criança.

A eleição presidencial de 25 de outubro terminou com a reeleição de Lula, que recebeu 51,79% dos votos válidos, diante de 48,21% de Flávio Bolsonaro. O resultado definiu quem governará o país, mas não eliminou as divergências entre os eleitores.

Em uma sociedade democrática, essas diferenças fazem parte da vida pública. O problema surge quando discordar passa a significar intimidar, excluir, humilhar ou ameaçar outra pessoa.

A escola ocupa um lugar especialmente importante nessa discussão. É ali que crianças e adolescentes convivem diariamente com pessoas de origens, crenças, condições econômicas e opiniões diferentes. Aprender a lidar com essa diversidade também faz parte da formação para a cidadania.

No caso de Felipe, a ameaça retirou temporariamente do adolescente a tranquilidade de frequentar as aulas. Em Itajaí, a violência chegou ao contato físico. Em Araguari, alcançou estudantes que dependem de bolsas e do próprio trabalho. Em Fortaleza, atingiu uma criança por uma escolha eleitoral que nem sequer era sua.

O ponto comum entre essas histórias não é o candidato defendido por cada pessoa, mas a transformação de diferenças políticas em justificativa para atingir a dignidade e a segurança de outras pessoas.

As respostas institucionais precisam, portanto, ir além de conter conflitos pontuais. Elas envolvem proteção efetiva das vítimas, responsabilização conforme a legislação e construção de ambientes nos quais ninguém precise esconder suas opiniões ou abandonar os estudos por medo.

A democracia permite que cidadãos discordem profundamente uns dos outros. Sua convivência cotidiana, porém, depende de um limite essencial: nenhuma preferência política retira de alguém o direito de estudar, trabalhar e viver em segurança.

Relacionadas, fontes e documentos:

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