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Pé diabético pode evoluir sem dor e levar à amputação

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

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Ressecamento e perda de sensibilidade podem esconder lesões graves nos pés

Uma fissura, um calo ou um pequeno ferimento no pé pode avançar sem dor até se transformar em uma infecção grave em pessoas com diabetes. A perda de sensibilidade e a circulação sanguínea deficiente dificultam a percepção e a cicatrização das lesões, elevando o risco de necrose e amputação.

O alerta ganha relevância nesta sexta-feira, 26 de junho, Dia Nacional do Diabetes. A doença ocorre quando o organismo não produz insulina em quantidade suficiente ou não consegue utilizá-la adequadamente, provocando aumento persistente da glicose no sangue.

Quando não está controlada, a condição pode comprometer vasos sanguíneos, nervos, rins, olhos e coração. Nos membros inferiores, os danos neurológicos e circulatórios podem resultar no chamado pé diabético.

Cerca de 85% das amputações de membros inferiores relacionadas ao diabetes são precedidas por úlceras nos pés. O dado ajuda a dimensionar a importância de identificar e tratar as alterações antes que a lesão evolua.

Perda de sensibilidade impede que paciente perceba o trauma

O pé diabético pode envolver neuropatia, doença arterial periférica, deformidades, feridas e infecções. A neuropatia compromete os nervos e reduz a capacidade de sentir dor, pressão, calor, frio e vibração.

A doença arterial periférica, por sua vez, diminui o fluxo de sangue para os membros. Com menos irrigação, os tecidos recebem menos oxigênio e nutrientes, o que dificulta a cicatrização e a resposta do organismo às infecções.

No Centro Especializado em Diabetes, Obesidade e Hipertensão Arterial, o Cedoh, muitos pacientes chegam quando o quadro já está avançado.

“Além do dano vascular, também há o comprometimento nervoso. O paciente apresenta uma irrigação sanguínea cada vez mais deficiente e, ao mesmo tempo, perde a sensibilidade dos membros”, explica a enfermeira Samaya Ribeiro, responsável pelo Ambulatório do Pé Diabético da unidade.

Segundo ela, algumas pessoas somente percebem o ferimento quando a lesão já atingiu tecidos mais profundos.

“Muitas vezes, ele só percebe uma lesão quando o trauma já evoluiu e a área começa a necrosar. Com esse grau de comprometimento, nossa intervenção fica bastante limitada”, afirma.

Ressecamento persistente pode ser o primeiro sinal

Uma das primeiras alterações pode ser o ressecamento intenso da pele, chamado de xerose ou xerodermia. O problema ocorre porque os danos nos nervos podem afetar as glândulas responsáveis pela produção de suor e oleosidade.

A pele seca perde elasticidade e pode desenvolver fissuras, especialmente nos calcanhares. Essas aberturas funcionam como portas de entrada para bactérias e outros agentes infecciosos.

“O paciente pode ter os pés sempre ressecados. Esse ressecamento evolui para fissuras, e algumas pessoas chegam praticamente sem andar por causa da profundidade dessas lesões”, relata Samaya.

O quadro pode ocorrer ao mesmo tempo que a perda da chamada sensibilidade protetora. Essa capacidade permite perceber uma pedra dentro do sapato, uma palmilha dobrada, uma costura pressionando a pele ou uma superfície excessivamente quente.

Sem esse mecanismo de defesa, o paciente pode continuar caminhando sobre um ferimento ou sofrer queimaduras sem perceber imediatamente.

“Temos casos de pessoas que fazem escalda-pés, mas não sentem que a água está quente demais. Elas chegam ao atendimento com queimaduras porque colocaram os pés em água muito quente”, diz a enfermeira.

Alterações nos pés exigem avaliação profissional

Pessoas com diabetes devem procurar atendimento ao perceber mudanças na pele, nas unhas, na temperatura, na cor ou no formato dos pés.

Entre os sinais de alerta estão:

  • ressecamento intenso e fissuras;
  • dormência, formigamento ou queimação;
  • perda de sensibilidade;
  • bolhas, calos ou feridas;
  • vermelhidão, inchaço ou calor;
  • mudança de cor na pele;
  • secreção ou mau cheiro;
  • ferimentos que não cicatrizam;
  • áreas escurecidas ou com aparência de necrose.

Calos, bolhas, unhas encravadas e pequenos machucados não devem ser cortados ou tratados com instrumentos improvisados. A retirada inadequada pode provocar novas lesões e facilitar infecções.

Também não é recomendado colocar os pés em água quente, andar descalço ou usar calçados apertados e com costuras que provoquem atrito.

Ferimento aparentemente pequeno terminou em amputação

A aposentada Maura Aleixo, de 77 anos, convive com os efeitos do diabetes há mais de quatro décadas. O diagnóstico ocorreu depois que ela percebeu uma alteração semelhante a um calo no pé esquerdo.

Um exame apontou glicemia de 380 miligramas por decilitro, valor muito acima do intervalo esperado. Desde então, ela enfrenta episódios recorrentes de inchaço e abertura de feridas.

“Quando o pé melhora, torna a inchar e o ferimento abre de novo”, relata.

Na perna direita, uma lesão provocada por um bicho-de-pé evoluiu de forma mais grave. Segundo Maura, a retirada foi feita em casa por uma de suas filhas.

“Esse pé foi inchando, foi apodrecendo e, no fim, tive que amputar a perna. Isso foi em 1996, tudo por causa do diabetes”, conta.

Hoje, ela utiliza uma prótese abaixo do joelho e faz acompanhamento no Ambulatório do Pé Diabético do Cedoh.

O relato mostra como um ferimento inicialmente considerado pequeno pode ganhar gravidade quando se combina com perda de sensibilidade, circulação deficiente, dificuldade de cicatrização e infecção.

Cuidados diários ajudam a identificar feridas mais cedo

A prevenção depende do controle da glicemia e de uma rotina de observação dos pés. A avaliação deve incluir a planta, os calcanhares, as laterais e os espaços entre os dedos. Quando houver dificuldade para enxergar essas áreas, pode ser utilizado um espelho ou solicitada a ajuda de outra pessoa.

Os pés devem ser lavados com água em temperatura confortável e secos cuidadosamente, principalmente entre os dedos. A pele pode ser hidratada para reduzir o ressecamento, evitando a aplicação de creme nos espaços entre os dedos.

Antes de calçar os sapatos, é importante verificar se há pedras, objetos, costuras soltas ou dobras na palmilha. Os calçados devem ser confortáveis, firmes e compatíveis com o formato dos pés.

Mesmo sem feridas visíveis, pessoas com diabetes precisam ter os pés examinados periodicamente por profissionais de saúde. Quem já apresenta neuropatia, deformidades, doença vascular, histórico de úlcera ou amputação necessita de acompanhamento mais frequente.

Atendimento especializado depende de encaminhamento pela rede pública

No Distrito Federal, a Unidade Básica de Saúde é a porta de entrada para avaliação, acompanhamento do diabetes e encaminhamento aos serviços especializados.

O Cedoh atende casos graves de diabetes, obesidade e hipertensão e oferece, entre outros serviços, curativos e acompanhamento de pacientes com pé diabético. O acesso ocorre por encaminhamento da atenção primária e regulação, de acordo com os critérios assistenciais.

A rede pública do DF também mantém ambulatórios especializados em outras regiões. A distribuição territorial é relevante porque feridas nos pés não devem esperar semanas por avaliação, sobretudo quando há infecção, alteração de cor, secreção, inchaço ou perda de tecido.

Prevenção exige mais que recomendações individuais

O cuidado diário é indispensável, mas a redução das amputações não depende apenas do comportamento do paciente. Diagnóstico precoce, acesso regular a medicamentos, controle da glicemia, exame periódico dos pés e encaminhamento rápido formam uma mesma linha de proteção.

Quando uma pessoa chega ao serviço especializado com infecção extensa ou necrose, a margem para preservar o membro já pode estar reduzida. A prevenção efetiva começa antes da ferida, passa pela atenção básica e exige continuidade no tratamento.

Transformar o exame dos pés em rotina assistencial é uma medida simples diante do custo humano de uma amputação. Para o paciente, significa preservar mobilidade, autonomia e qualidade de vida. Para o sistema público, significa reduzir internações prolongadas, cirurgias, reabilitação e necessidade de próteses.

Relacionadas, fontes e documentos:

Laboratório do Lacen reforça diagnóstico de tuberculose (Fonte em Foco)
Opera DF chega a 5 mil cirurgias e Hran recebe obras (Fonte em Foco)
Rede de Cras atende 205 mil famílias no Distrito Federal (Fonte em Foco)
Vacina pneumo 20 chega ao SUS com proteção ampliada (Fonte em Foco)
– Complicações do diabetes (Ministério da Saúde)
– Manual do Pé Diabético (Ministério da Saúde)
– Diretriz sobre prevenção de úlceras (Sociedade Brasileira de Diabetes)
Diabetes é a principal causa de amputações no Brasil (Agência Brasília)

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