No Dia das Mães, famílias de desaparecidos cobram busca sem esquecimento
Há mães para quem o Dia das Mães não cabe em flores, almoço ou fotografia de família. Para elas, a data chega como mais uma travessia dentro de uma ausência que não termina. São mulheres que decoram roupas, vozes, manias, cicatrizes, caminhos e horários porque lembrar virou também uma forma de procurar.
Em 2025, o Brasil registrou 84.760 desaparecimentos, média de 232 pessoas por dia. O número cresceu 4,1% em relação a 2024 e mostra que o problema segue longe de ser residual. No mesmo período, 56.688 pessoas foram localizadas, mas milhares de famílias continuam vivendo entre a esperança, a demora institucional e a impossibilidade de encerrar uma história sem resposta.
Neste domingo (10), mães de filhos desaparecidos pedem algo que deveria ser elementar: visibilidade, respeito e ação. Não querem que o país substitua seus nomes por estatística. Querem busca, investigação, acolhimento e memória. Porque o desaparecimento não retira apenas uma pessoa de casa. Ele suspende o tempo de quem fica.
Quando a espera começa ainda na infância
Na zona rural de Bacabal, no Maranhão, Clarice Cardoso, de 27 anos, vive há mais de quatro meses com a vida interrompida. Seus filhos Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desapareceram em 4 de janeiro, depois de saírem para brincar e procurar maracujá em uma mata próxima de casa com o primo Anderson, de 8 anos, que foi encontrado.
Clarice também é mãe de André, de 9 anos. É nele que encontra o abraço cotidiano para atravessar os dias em que qualquer ligação pode parecer o anúncio de uma pista. A delegacia fica a cerca de 12 quilômetros de onde mora. Além da angústia, ela relata enfrentar olhares e comentários carregados de preconceito quando vai à cidade buscar informações. A investigação apura todas as hipóteses, inclusive a possibilidade de contato das crianças com um homem na mata, mas ainda não há conclusão oficial sobre o caso.
A dor de Clarice tem contornos ainda mais duros por ser vivida em uma comunidade quilombola, onde a distância física da delegacia se soma à distância social de quem precisa provar, além do sofrimento, a própria dignidade diante de julgamentos alheios. Desaparecimento já é ausência demais. Quando encontra racismo e indiferença pelo caminho, o Estado falha duas vezes.
Uma dor antiga que virou rede de apoio
Em São Paulo, Ivanise Espiridião, de 63 anos, procura a filha Fabiana desde 23 de dezembro de 1995. A menina desapareceu aos 13 anos. Três décadas depois, Ivanise atravessa o 30º Dia das Mães sem ela e transformou a própria dor em trabalho coletivo ao criar o grupo Mães da Sé, que hoje reúne mais de 6 mil mães no país.
O grupo nasceu do encontro entre mulheres que levavam cartazes à escadaria da Catedral da Sé para impedir que seus filhos fossem apagados da memória pública. Com o tempo, a mobilização passou também a oferecer orientação, acolhimento e tecnologia. Uma das ferramentas usadas é o aplicativo Family Faces, que utiliza reconhecimento facial para comparar imagens enviadas por usuários com o banco de dados da associação.
Ivanise repete uma orientação que ainda precisa ser dita porque, absurdamente, ainda é desrespeitada: não existe obrigação de esperar 24 horas para registrar o desaparecimento de uma criança ou adolescente. A Lei nº 11.259/2005 determina que a investigação seja iniciada imediatamente após a comunicação às autoridades competentes.
O mito da espera é mais que desinformação. É atraso em uma corrida na qual as primeiras horas podem ser decisivas. Quando uma família chega à delegacia e ouve que deve voltar depois, o poder público transforma sofrimento em burocracia e risco em rotina.
Busca também exige cuidado para quem ficou
O desaparecimento prolongado produz uma forma de luto sem corpo, sem certeza e sem conclusão. A psicóloga Melânia Barbosa, pesquisadora do tema, explica que familiares podem desenvolver depressão, crises de pânico e ansiedade, e defende suporte psicológico público para quem enfrenta esse tipo de ausência. O grupo Mães da Sé mantém cinco voluntários para atendimento remoto, mas o alcance da rede ainda depende muito mais da solidariedade civil do que de uma política pública suficientemente estruturada.
Essa lacuna importa. Famílias de desaparecidos não precisam apenas de cartazes, boletins e buscas. Precisam de escuta profissional, informação clara e acompanhamento prolongado. A ausência de resposta prolonga o sofrimento, mas a ausência de acolhimento o aprofunda.
Esperança que resiste ao calendário
Também integrante do Mães da Sé, Lucineide Damasceno, de 60 anos, procura o filho Felipe desde 3 de novembro de 2008, quando ele desapareceu aos 16 anos depois de sair de moto para encontrar um amigo que também sumiu. Depois de uma crise de pânico, em 2013, ela passou a atuar em apoio a outras famílias e criou a ONG Abrace, voltada ao suporte de parentes em maior vulnerabilidade.
Lucineide mantém um gesto que resume a permanência da esperança: há cerca de duas décadas, coloca todos os anos um presente para Felipe sob a árvore de Natal. Não porque o tempo parou, mas porque o amor, diante da falta de resposta, se recusa a obedecer ao calendário.
Ela tem outros filhos, netos e uma vida que seguiu sem deixar de doer. Aos poucos, aprendeu a aceitar convites da família no Dia das Mães, mesmo atravessada pela tristeza. Esse movimento não diminui a busca por Felipe. Apenas lembra que mães de desaparecidos também precisam continuar vivendo, ainda que uma parte delas permaneça parada no último dia em que viram o filho.
O país ainda procura tarde e pouco
Os números nacionais ajudam a dimensionar o problema. Quase três em cada dez desaparecimentos registrados em 2025 envolveram crianças e adolescentes. Foram 23.919 casos nessa faixa etária, média de 66 ocorrências por dia. Entre os menores de 18 anos, as meninas representaram 62% dos registros.
O Brasil aprovou em 2019 a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, mas sua implementação ainda é parcial. O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, criado em 2025 para facilitar o cruzamento de informações, tinha adesão de apenas 12 das 27 unidades da Federação no levantamento divulgado no início deste ano. Isso mostra que o país ainda não estruturou, em escala nacional, uma resposta compatível com a dimensão do problema.
A busca por desaparecidos não pode depender da capacidade de uma mãe virar investigadora, ativista, telefonista, assistente social e arquivo vivo do próprio filho. Quando a política pública é insuficiente, a família passa a ocupar o lugar que deveria ser do Estado. E o Estado, em vez de conduzir, aparece tarde para pedir informação que já deveria ter organizado.
Memória não substitui busca, mas impede o abandono
No Dia das Mães, essas mulheres não pedem pena. Pedem compromisso. Querem que seus filhos sejam procurados com a mesma urgência com que foram amados. Querem delegacias preparadas, dados integrados, atendimento sem preconceito, investigação imediata e apoio psicológico para quem permanece no labirinto.
Lembrar é necessário, mas não suficiente. Memória sem ação vira homenagem confortável para quem observa de fora. Para quem espera, o que importa é outra coisa: que o país não naturalize o sumiço, não trate desaparecimento como assunto lateral e não deixe que mães sejam obrigadas a gritar sozinhas para provar que seus filhos existiram.
Porque, para elas, a esperança não é frase de efeito. É trabalho diário. É atender o telefone, rever fotos, guardar presentes, contar a história de novo e exigir, mesmo depois de anos, que ninguém esqueça.
Fontes e documentos:
– Busca por desaparecidos expõe ferida aberta da ditadura (Fonte em Foco)
– Chuvas na Zona da Mata deixam 36 mortos e 33 desaparecidos (Fonte em Foco)
– Mães de desaparecidos pedem visibilidade memória e respeito (Agência Brasil)
– Brasil registrou 84,7 mil desaparecidos em 2025 média de 232 por dia (Agência BrasilPolíticas Públicas

