Publicidade
InícioBrasilCrimes de Maio chegam a 20 anos sem justiça às famílias

Crimes de Maio chegam a 20 anos sem justiça às famílias

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

Cobertura relacionada

Restrições eleitorais começaram a valer no sábado

Defeso eleitoral passa a valer três meses antes do primeiro turno e impõe limites a agentes públicos, órgãos de governo e candidatos.

PF bloqueia R$ 10,4 bilhões em operação contra lavagem

Polícia Federal cumpre 11 prisões temporárias e 13 buscas contra uma rede suspeita de movimentar mais de R$ 10 bilhões.

Inea interdita área de mineração ilegal em Maricá

Fiscalização do Inea encontrou desmatamento, corte de talude e extração mineral irregular em área de 17.886 m² em Inoã.

Câmara cria comissão da maioridade penal

Hugo Motta criou comissão especial para analisar a PEC da maioridade penal, após aprovação da admissibilidade pela CCJ.

Força integrada cumpre 274 mandados em 16 estados

Operação nacional das Ficcos cumpre 181 buscas e 93 prisões contra suspeitos ligados ao crime organizado em 16 estados.

Tabagismo é 76% maior entre homossexuais e bissexuais

Uso de tabaco é 76% maior entre homossexuais e bissexuais. Estudo expõe desigualdade, falhas nos dados e desafios do SUS. Entenda.
Publicidade

Famílias dos Crimes de Maio chegam a 20 anos sem respostas

Vinte anos depois dos Crimes de Maio, mães e familiares de vítimas ainda cobram responsabilização, reparação e memória para um dos episódios mais graves de violência estatal da história recente do país. Entre elas está Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, que voltou a atravessar neste domingo uma data marcada por duas ausências: o aniversário e o Dia das Mães que, desde 2006, passaram a carregar também a lembrança do assassinato do filho, Edson Rogério Silva dos Santos.

Um luto que o tempo não encerrou

Em 14 de maio de 2006, Débora reuniu a família na Baixada Santista para celebrar o aniversário e o Dia das Mães. No dia seguinte, Edson Rogério, então com 29 anos, foi morto a tiros após sair para trabalhar. A mãe relata que o filho havia sido abordado por policiais antes de ser assassinado e afirma que nunca mais conseguiu separar a data comemorativa da memória da perda.

O caso de Edson Rogério se insere no conjunto de mortes ocorridas entre 12 e 21 de maio de 2006, quando ataques atribuídos ao PCC foram seguidos por uma “onda de resposta” de agentes estatais e grupos de extermínio. Relatório oficial da então Secretaria de Direitos Humanos registrou 564 mortos e 110 feridos naquele período, com 505 civis entre as vítimas. O mesmo documento apontou que, depois dos primeiros ataques, a proporção saltou para 17,5 civis mortos para cada agente público morto, além de identificar um perfil recorrente entre as vítimas: homens jovens, pobres, negros e pardos.

Memória preservada, justiça ainda distante

A dor pessoal de Débora se transformou em ação coletiva pouco depois da morte do filho, com a criação do movimento Mães de Maio, hoje referência nacional na luta por memória, reparação e enfrentamento da violência estatal. Duas décadas depois, a pauta central permanece quase intacta: as famílias seguem sem respostas proporcionais à dimensão do massacre. Em apelo encaminhado à ONU, o movimento e a Conectas Direitos Humanos afirmaram que as execuções não foram devidamente esclarecidas, que nenhum agente estatal foi responsabilizado de forma compatível com a gravidade dos fatos e que as famílias não receberam reparação adequada.

A lentidão institucional não é apenas percepção das famílias. O relatório oficial de 2013 já registrava que quase todos os inquéritos envolvendo mortes de civis haviam sido arquivados e que apenas um processo tramitava no Tribunal do Júri paulista naquele momento. Na esfera civil, o documento também apontava o caso de Débora Maria da Silva, em que houve acórdão reconhecendo a responsabilidade do Estado, seguido de recurso apresentado pelo próprio Estado. Mais recentemente, o Superior Tribunal de Justiça passou a discutir se pedidos de indenização ligados aos Crimes de Maio podem prescrever, tema levado à Primeira Seção em razão da relevância jurídica e social do caso.

Quando a impunidade também vira herança

A passagem de 20 anos não reduziu o peso do episódio. Ao contrário, expôs o quanto a demora do Estado funciona como uma segunda violência para quem ficou. O tempo, que deveria servir à apuração, foi sendo consumido por arquivamentos, recursos e silêncio institucional. Quando famílias precisam recorrer a organismos internacionais para exigir o básico, o problema já deixou de ser apenas judicial; tornou-se um retrato de como o país ainda trata a morte de jovens periféricos como fato administrável, e não como ruptura democrática.

A história de Débora também ajuda a mostrar que memória não é ornamento de data redonda. É uma ferramenta pública contra a repetição. O massacre de 2006 não ficou preso a 2006 porque a estrutura que permitiu a violência, a seletividade das vítimas e a baixa responsabilização não foi desfeita por completo. Vinte anos depois, o país ainda deve às famílias mais do que homenagens: deve verdade, reparação e uma resposta estatal que não chegue tarde a ponto de parecer desistência.

Fontes e documentos:

Mães de desaparecidos pedem memória e ação (Fonte em Foco)
Desaparecimentos de menores sobem 8% no Brasil (Fonte em Foco)
Brasil registra 84 mil desaparecimentos em 2025 (Fonte em Foco)
– Relatório sobre os Crimes de Maio de 2006 (Ministério dos Direitos Humanos)
– Primeira Seção do STJ julgará recurso sobre Crimes de Maio (STJ)
Entidades denunciam à ONU omissão do Brasil nos Crimes de Maio (Agência Brasil)

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.