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Novo núcleo da Uerj investiga impactos do racismo

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Novo núcleo pretende integrar pesquisas e revelar mecanismos que mantêm disparidades raciais no Brasil

O Brasil reúne ampla produção acadêmica sobre desigualdades raciais, mas ainda enfrenta dificuldades para medir como práticas, decisões e estruturas racistas produzem essas diferenças ao longo do tempo. Para enfrentar essa lacuna, pesquisadores ligados à Universidade do Estado do Rio de Janeiro criaram o núcleo Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo, o Dara.

O grupo foi lançado no fim de junho e está vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj. A equipe reúne coordenadores, pesquisadores e profissionais das áreas de comunicação e tecnologia, com financiamento proveniente de agências públicas de pesquisa e instituições filantrópicas.

Esta matéria é baseada em reportagem da Agência Brasil, que entrevistou o professor de sociologia e ciência política Luiz Augusto Campos, coordenador-geral do Dara. As informações institucionais também foram confrontadas com registros divulgados pelo Iesp-Uerj.

Desigualdade racial pode ser medida sem revelar sua causa

Indicadores de renda, escolaridade, emprego, representação política e acesso a serviços públicos permitem identificar diferenças entre grupos raciais. Esses números, contudo, nem sempre mostram quais práticas ou decisões produziram as disparidades.

Para Luiz Augusto Campos, estimar a participação do racismo na formação das desigualdades é uma tarefa mais complexa do que simplesmente medir a distância existente entre pessoas negras e brancas.

Essa distinção orienta a atuação do Dara. O núcleo pretende estudar não apenas os resultados desiguais, mas os mecanismos que podem produzi-los, reproduzi-los ou agravá-los.

Na prática, saber que um grupo recebe salários menores ou ocupa menos posições de comando é apenas o começo da investigação. É necessário examinar processos seletivos, critérios institucionais, trajetórias educacionais, redes de contato, práticas discriminatórias e outros fatores capazes de explicar como a diferença foi formada.

Falta de integração limita o conhecimento disponível

O Brasil possui centros acadêmicos, organizações sociais e pesquisadores dedicados às relações raciais. O diagnóstico apresentado pelo coordenador do Dara é que esses estudos ainda dialogam pouco entre si e nem sempre utilizam métodos que permitam comparar resultados ao longo do tempo.

A fragmentação dificulta a construção de séries históricas, o confronto entre pesquisas e a avaliação de políticas públicas. Estudos produzidos em períodos ou instituições diferentes podem adotar perguntas, categorias e critérios incompatíveis, impedindo que os resultados sejam reunidos com segurança.

O núcleo pretende atuar em duas frentes. A primeira consiste em aproximar grupos e pesquisas já existentes. A segunda busca adaptar ao contexto brasileiro metodologias utilizadas internacionalmente para investigar racismo e discriminação.

O objetivo declarado é transformar dados dispersos em evidências capazes de orientar o debate público, a produção científica e a formulação de políticas antirracistas.

Acesso a microdados teria regredido

Campos afirma que o país enfrenta uma redução da capacidade de acessar, processar e integrar dados necessários para compreender o funcionamento do racismo.

A dificuldade envolve tanto o acesso a microdados oficiais quanto a comunicação entre levantamentos produzidos por instituições distintas. Microdados são registros individualizados, protegidos por regras de anonimização, que permitem análises mais detalhadas do que tabelas consolidadas.

Quando esse material não está disponível, é incompleto ou não pode ser comparado com outras bases, pesquisadores perdem capacidade de acompanhar os efeitos de médio e longo prazos de políticas públicas e transformações sociais.

O Dara também pretende integrar pesquisas de opinião e percepção sobre racismo. Esses levantamentos registram como a população identifica discriminações, avalia relações raciais e percebe políticas de enfrentamento.

A reunião das bases, entretanto, exige compatibilidade metodológica. Resultados não podem ser simplesmente somados quando as perguntas, as amostras e os períodos analisados são diferentes.

Experimentos podem identificar discriminação direta

O núcleo pretende ampliar o uso de pesquisas experimentais, ainda pouco disseminadas no país. Uma das possibilidades são os experimentos de campo, elaborados para verificar se pessoas com características semelhantes recebem tratamentos diferentes em situações concretas.

Em processos seletivos, por exemplo, pesquisadores podem comparar respostas dadas a currículos equivalentes nos quais apenas determinados sinais associados à identidade racial são alterados. Metodologias semelhantes podem ser empregadas em estudos sobre moradia, crédito, educação e atendimento ao público.

Esses experimentos precisam seguir regras éticas e desenhos metodológicos rigorosos. Quando bem executados, ajudam a separar o efeito da discriminação de outras variáveis que também interferem no resultado.

A proposta não é substituir estatísticas sobre desigualdade, mas combiná-las com instrumentos capazes de investigar relações de causa e efeito.

Ações afirmativas ampliaram a diversidade acadêmica

A maioria dos integrantes do Dara é negra. Para Campos, essa composição está relacionada à expansão das políticas de ação afirmativa no ensino superior e na pós-graduação.

Parte da equipe integra uma geração que alcançou espaços acadêmicos após a ampliação do acesso de estudantes pretos e pardos às universidades. Essa mudança também alterou as perguntas formuladas dentro das instituições de pesquisa.

O coordenador argumenta que experiências sociais distintas podem ampliar os temas, problemas e perspectivas incorporados à produção científica. Isso não elimina a exigência de rigor metodológico, verificabilidade e abertura ao debate.

A diversidade de pesquisadores, portanto, não substitui o método científico. Ela pode ampliar o campo de investigação ao trazer questões anteriormente ignoradas ou tratadas de forma secundária.

Políticas antirracistas precisam ser avaliadas

O avanço de ações afirmativas no ensino superior, no serviço público e nas eleições demonstra que reivindicações históricas dos movimentos negros foram incorporadas a políticas institucionais.

A existência dessas medidas, porém, não comprova que o racismo tenha sido superado. Também não dispensa a avaliação dos resultados, das limitações e dos efeitos indesejados de cada política.

Campos sustenta que parte da resistência atual ao antirracismo se apoia no argumento de que as ações afirmativas já teriam resolvido o problema. Para confrontar essa afirmação, são necessários dados capazes de mostrar tanto a permanência das desigualdades quanto o desempenho das medidas adotadas.

Essa avaliação deve distinguir alcance, execução e impacto. Uma política pode existir formalmente, mas atender poucas pessoas, enfrentar falhas de implementação ou não modificar os mecanismos que produzem exclusão.

Quem coordena o Dara

Luiz Augusto Campos é professor associado de sociologia e ciência política no Iesp-Uerj e doutor em sociologia pela mesma universidade. Atua em pesquisas sobre desigualdades raciais, democracia, ações afirmativas e produção científica.

O pesquisador é editor-chefe da revista Dados e coordena o Dara e o Observatório das Ciências Sociais. Também participou da coordenação de grupos e áreas acadêmicas dedicadas às ações afirmativas, às relações raciais e à ciência política.

Campos realizou atividades como pesquisador visitante na Sciences Po, na França, e na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos.

Produzir dados não basta sem acesso e continuidade

A criação do Dara evidencia uma contradição da pesquisa racial no Brasil. O país consegue documentar desigualdades persistentes, mas ainda dispõe de instrumentos limitados para identificar com precisão como o racismo atua em diferentes instituições.

Preencher essa lacuna exige mais do que lançar novos levantamentos. Será necessário garantir acesso responsável aos dados públicos, compatibilidade entre pesquisas, continuidade do financiamento e independência metodológica.

O impacto do núcleo também dependerá da publicação transparente de métodos, bases e limitações. Evidências ganham força quando podem ser examinadas, contestadas e reproduzidas por outros pesquisadores.

Sem essa estrutura, o país continuará sabendo onde a desigualdade aparece, mas terá dificuldade para localizar os mecanismos que a produzem. E diagnóstico sem causa identificada costuma gerar política pública que trata o efeito enquanto o problema permanece trabalhando nos bastidores.

Relacionadas, fontes e documentos:

Congresso aprova medidas de proteção às mulheres (Fonte em Foco)
Internet avança no Brasil, mas exclusão digital persiste (Fonte em Foco)
Câmara cria comissão da maioridade penal (Fonte em Foco)
Cai o uso de celular entre crianças de 10 a 13 anos (Fonte em Foco)
Governo lança campanha contra racismo no carnaval 2026 (Fonte em Foco)
Brasil tem dificuldade para medir impacto do racismo, diz pesquisador (Agência Brasil)
– 
Iesp-Uerj lança núcleo de pesquisa de dados e análises do racismo e do antirracismo (Iesp-Uerj)
– Lançamento do Dara Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo (Iesp-Uerj)

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