Trabalhadores aguardam definição sobre jornada de 40 horas enquanto outras propostas correm contra os prazos legislativos
A proposta que reduz a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais e assegura dois dias de descanso deverá atravessar o período de recesso sem avançar no Senado. A PEC 221/2019 chegou à Casa em 28 de maio, mas ainda não foi encaminhada para análise de uma comissão.
O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados em dois turnos no dia 27 de maio. No primeiro, recebeu 472 votos favoráveis e 22 contrários. No segundo, foram 461 votos a favor e 19 contra. A aprovação encerrou a etapa na Câmara, mas uma emenda constitucional ainda precisa passar por dois turnos no Senado, com apoio mínimo de três quintos dos parlamentares.
A pausa legislativa está prevista para começar em 18 de julho. Pela Constituição, porém, a sessão legislativa não pode ser formalmente interrompida sem a aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias. A votação da LDO de 2027 ainda poderia ser adiada para agosto, o que exige cautela ao tratar o recesso como situação definitivamente confirmada.
Escala 6×1 ainda não tem calendário de votação
A PEC estabelece uma transição para a nova jornada. Sessenta dias após eventual promulgação, o limite semanal cairia de 44 para 42 horas, com dois dias de repouso remunerado. Depois de 12 meses, passaria definitivamente para 40 horas semanais.
A regra alcançaria o limite constitucional da jornada, sem redução salarial. Algumas categorias dependeriam de legislação específica para adaptar escalas, turnos e características próprias da atividade.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou anteriormente que a proposta não seria enviada diretamente ao Plenário. Ele defendeu que os senadores discutam os impactos econômicos, sociais e produtivos do texto antes da votação.
O Senado realizou uma sessão de debates temáticos em 1º de julho, mas ainda não divulgou um calendário para a tramitação. Sem despacho para uma comissão, escolha de relator e votação do parecer, a possibilidade de conclusão antes da pausa parlamentar tornou-se remota.
A situação não deve ser confundida com rejeição. A PEC continua em tramitação, mas depende de uma decisão administrativa da Presidência do Senado para ingressar formalmente na etapa de análise legislativa.
O andamento da PEC 221/2019 pode ser acompanhado no portal do Senado.
Senado também discute proposta de jornada de 36 horas
A PEC aprovada pela Câmara não é a única iniciativa sobre o tema em tramitação no Senado.
A PEC 148/2015, aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça em dezembro de 2025, prevê redução gradual da jornada máxima para 36 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado. O texto está pronto para análise do Plenário.
As propostas possuem alcances diferentes. A PEC encaminhada pela Câmara fixa 40 horas e escala de cinco dias de trabalho por dois de descanso. A matéria já existente no Senado avança até 36 horas.
Uma eventual alteração substancial feita pelos senadores obrigará o texto a retornar à Câmara. Para que uma emenda constitucional seja promulgada, as duas Casas precisam aprovar exatamente a mesma redação.
Essa exigência transforma a escolha do caminho legislativo em ponto decisivo. Unificar textos pode acelerar a construção política, mas diferenças sobre jornada, transição e exceções profissionais também podem prolongar a tramitação.
Projeto sobre misoginia tenta chegar ao Plenário
Na Câmara, o PL 896/2023 aguarda votação após ter o regime de urgência aprovado em 1º de julho por 293 votos a 158.
O projeto inclui crimes praticados em razão de misoginia na Lei nº 7.716/1989, que trata de discriminação e preconceito. O texto define misoginia como ódio ou aversão às mulheres e prevê a aplicação do regime jurídico associado aos crimes abrangidos pela lei.
A urgência permite que a proposta seja analisada diretamente pelo Plenário, sem a conclusão prévia de todas as etapas nas comissões. Isso não garante, entretanto, que a votação ocorra nesta semana.
A matéria não aparecia na previsão inicial de deliberações. Como a pauta pode ser alterada por decisão da Presidência e acordo entre líderes, o projeto ainda pode ser incluído, mas não há votação assegurada.
A relatora, deputada Tabata Amaral, negocia mudanças para ampliar o apoio ao texto. O presidente da Câmara, Hugo Motta, reconheceu divergências entre as bancadas e defendeu a construção de uma redação de consenso.
Partidos como PL, Novo e Missão votaram contra a urgência. Entre as críticas apresentadas estão dúvidas sobre a definição jurídica da conduta e o alcance penal da proposta.
A tramitação atualizada do PL 896/2023 está disponível no portal da Câmara.
Urgência não resolve divergência sobre o texto
O projeto foi aprovado por unanimidade no Senado em março e encaminhado à Câmara para revisão. Se os deputados modificarem o conteúdo, a matéria terá de voltar aos senadores antes de seguir para sanção presidencial.
A equiparação à Lei do Racismo produz efeitos jurídicos relevantes. Crimes abrangidos por essa legislação são inafiançáveis e imprescritíveis, o que significa que não admitem pagamento de fiança e podem ser processados independentemente do tempo transcorrido.
Por isso, a definição precisa das condutas alcançadas é central para a segurança jurídica. O combate à violência e à discriminação contra mulheres exige instrumentos efetivos, mas a lei penal também precisa delimitar objetivamente quais comportamentos configuram crime.
A aprovação da urgência encurtou o procedimento. Não eliminou o desacordo.
Medida do piso do frete perde validade nesta quinta
Outra proposta sob pressão do calendário é a Medida Provisória 1.343/2026, que reforça os mecanismos de fiscalização do piso mínimo do transporte rodoviário de cargas.
A MP perde a validade em 16 de julho caso o Senado não conclua a votação. A Câmara aprovou o texto em 17 de junho, mas a matéria não foi incluída na pauta inicial do Plenário do Senado.
A versão original determinava o cadastramento das operações de transporte e a geração do Código Identificador da Operação de Transporte. O mecanismo busca permitir que a Agência Nacional de Transportes Terrestres confronte contratos, valores pagos e a tabela mínima do frete.
A proposta também fortalece sanções contra empresas que contratarem transportadores autônomos por valores inferiores ao piso legal.
Durante a tramitação, o texto foi ampliado pelo relator, deputado Zé Trovão. Entre as mudanças estão um piso salarial nacional para motoristas de longa distância e anistias relacionadas a multas aplicadas a caminhoneiros.
Anistias ampliaram alcance da medida provisória
O texto aprovado pela Câmara prevê o perdão de multas relacionadas a bloqueios de rodovias ocorridos após as eleições de 2022.
Também foram incluídas regras de anistia para penalidades aplicadas por descumprimento do piso mínimo do frete, além de alterações sobre excesso de carga e infrações de velocidade.
As inclusões modificaram significativamente o alcance da medida editada pelo Poder Executivo. O instrumento que começou concentrado na fiscalização do frete passou a reunir temas trabalhistas, administrativos e sancionatórios.
Caso a MP caduque, as regras originais deixam de produzir efeitos a partir do encerramento da vigência. O Congresso ainda poderá editar um decreto legislativo para disciplinar as relações jurídicas formadas enquanto a medida esteve válida.
O acompanhamento oficial da MP 1.343/2026 informa o prazo final e os documentos aprovados durante a tramitação.
Câmara concentra projetos e créditos extraordinários
A Câmara reservou a última semana antes da pausa legislativa para projetos de lei, medidas provisórias e requerimentos de urgência.
Entre as propostas anunciadas está o PL 1.828/2023, que autoriza a instalação de sistemas de reconhecimento facial em estações ferroviárias e rodoviárias, dentro de vagões, em vias públicas e em repartições.
O uso dessa tecnologia envolve duas dimensões que precisam ser avaliadas conjuntamente. De um lado, órgãos de segurança apontam potencial para identificar pessoas procuradas e localizar desaparecidos. De outro, especialistas e entidades de direitos civis alertam para riscos de falsos positivos, tratamento indevido de dados biométricos e abordagens discriminatórias.
Também está entre as matérias anunciadas o projeto que prevê a cassação da Carteira Nacional de Habilitação de quem abandonar animais em vias públicas.
A presença de uma proposta na pauta não garante votação. Requerimentos, acordos de líderes, obstruções e mudanças na ordem do dia podem alterar as deliberações até o encerramento da sessão.
Senado analisa créditos para diesel e chuvas em Minas
A pauta do Senado inclui a MP 1.344/2026, que abriu crédito extraordinário de R$ 10 bilhões para financiar subsídios destinados a produtores e importadores de óleo diesel.
Os recursos sustentam medidas adotadas para reduzir o impacto da alta internacional do petróleo sobre o combustível rodoviário. A MP foi aprovada pela Câmara e encaminhada ao Senado.
Também aguarda análise a MP 1.342/2026, que abriu crédito de R$ 1,305 bilhão para ações relacionadas a danos climáticos, com concentração de medidas em municípios de Minas Gerais atingidos por chuvas intensas.
Os recursos incluem R$ 500 milhões para habitação, R$ 300 milhões para facilitar operações de crédito e valores destinados ao fortalecimento da assistência social.
Como medidas provisórias produzem efeitos desde a publicação, a perda de validade não apaga automaticamente tudo o que foi executado. Ela impede, porém, que as normas continuem valendo e obriga o Congresso a definir o tratamento das relações jurídicas já constituídas.
Calendário expõe o poder de controlar a pauta
A última semana antes do recesso mostra que a tramitação legislativa não depende apenas do número de votos favoráveis.
A PEC da escala 6×1 deixou a Câmara com apoio superior a 90% dos deputados votantes, mas não avançou porque ainda depende de despacho no Senado. O projeto sobre misoginia recebeu urgência, mas continua submetido à construção de acordo. A medida do frete foi aprovada por uma Casa e pode perder a validade sem sequer chegar à votação na outra.
Presidentes das Casas e líderes partidários controlam quais matérias entram na ordem do dia e em que momento. Esse poder organiza os trabalhos, mas também permite que propostas avancem, esperem ou caduquem sem uma votação de mérito.
Para trabalhadores, mulheres protegidas pela proposta sobre misoginia, caminhoneiros e famílias atendidas por créditos emergenciais, o efeito não está no rito parlamentar em abstrato. Está no tempo que cada direito, obrigação ou recurso leva para sair do papel.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Eleições 2026 têm convenções a partir de 20 de julho (Fonte em Foco)
– Congresso aprova medidas de proteção às mulheres (Fonte em Foco)
– Roraima vota para governador em eleição suplementar (Fonte em Foco)
– Transporte público terá metas de pontualidade e conforto (Fonte em Foco)
– PEC da escala 6×1 segue parada no Senado (Fonte em Foco)
– PEC 221 de 2019 sobre jornada de trabalho (Senado Federal)
– Câmara aprova em dois turnos o fim da escala 6×1 (Câmara dos Deputados)

