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Terror celestial transforma medo LGBT+ em criação

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Exposição reúne 24 artistas em Fortaleza e ressignifica imagens de monstruosidade, trauma e desobediência

Imagens historicamente usadas para agredir e excluir pessoas LGBT+ ganham outro significado na exposição Terror celestial, aberta ao público no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, em Fortaleza.

A mostra reúne obras de 24 artistas e transforma figuras monstruosas, paisagens surrealistas, experiências espirituais e rupturas de gênero em instrumentos de criação artística.

Com curadoria de Lucas Dilacerda, a exposição permanece no MAC Dragão até 4 de outubro. Pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos, performances, objetos e instalações ocupam o espaço com diferentes interpretações sobre medo, violência, identidade e pertencimento.

Terror celestial ressignifica imagens de violência

A proposta parte da forma como pessoas LGBT+ foram historicamente descritas como estranhas, anormais, monstruosas ou ameaçadoras.

Essas classificações não permanecem apenas no campo da linguagem. Elas podem produzir rejeição familiar, violência física, discriminação, isolamento social e efeitos psicológicos que acompanham as vítimas durante anos.

A exposição investiga como artistas LGBT+ reelaboram esse repertório e transformam palavras e imagens utilizadas para ferir em novas possibilidades de existência.

Em vez de negar a monstruosidade atribuída pela sociedade, parte das obras incorpora seres híbridos, quimeras e corpos que ultrapassam fronteiras estabelecidas entre humano, animal, vegetal, mineral e espiritual.

O terror deixa de aparecer apenas como fonte de ameaça e passa a funcionar como força estética, política e criativa.

Pesquisa analisou quase 300 portfólios

A seleção dos participantes foi precedida por um mapeamento de aproximadamente 300 portfólios de artistas LGBT+.

A curadoria buscou reunir diferenças de geração, raça, território, trajetória e linguagem artística.

O recorte evita apresentar a população LGBT+ como um grupo homogêneo. As experiências de uma pessoa negra, indígena, periférica, trans, lésbica ou gay podem ser atravessadas por violências e referências culturais distintas.

A diversidade também aparece nos materiais utilizados. As obras empregam barro, cerâmica, giz, grafite, sal, terra, tinta a óleo, óxido de ferro e recursos audiovisuais.

A multiplicidade de técnicas reforça a ideia de que não existe uma única estética LGBT+ nem uma maneira uniforme de responder à violência.

Monstros e quimeras rompe fronteiras do humano

A primeira linha curatorial, Monstros e quimeras, reúne obras que questionam os limites tradicionais usados para definir humanidade e normalidade.

Os trabalhos apresentam cruzamentos entre animais, plantas, minerais, seres encantados e forças sobre-humanas.

A monstruosidade aparece como aquilo que escapa às classificações rígidas. Os corpos não precisam permanecer inteiros, estáveis ou reconhecíveis segundo padrões convencionais.

O núcleo inclui trabalhos de:

  • Davi Ângelo;
  • Higo José;
  • insiranomeaqui;
  • Jonas Van;
  • Juno B;
  • Luciana Magno;
  • Maurício Coutinho;
  • Trojany.

As figuras híbridas funcionam como contraponto à tentativa de enquadrar corpos, desejos e identidades em categorias únicas.

Espiritualidade terrena aborda trauma e cura

O segundo eixo analisa a relação entre pessoas LGBT+ e experiências religiosas.

Instituições e discursos cristãos foram utilizados, em diferentes contextos, para condenar identidades de gênero e orientações sexuais. Essa experiência pode produzir culpa, expulsão de comunidades religiosas e rompimento de vínculos familiares.

A exposição também apresenta caminhos espirituais construídos fora desses ambientes de violência.

Saberes de matriz africana, tradições populares, cosmovisões indígenas e relações com a natureza surgem como formas de reconexão, proteção e cura.

Participam desse núcleo:

  • Carnaval no Inferno;
  • Darwin Marinho;
  • Charles Lessa;
  • Isadora Ravena;
  • Georgia Vitrilis;
  • Honório Félix;
  • Nicolas Gondim;
  • Pedra Silva;
  • Sérgio Gurgel.

A abordagem não apresenta religião apenas como origem de opressão. Ela mostra que a espiritualidade também pode ser reconstruída por pessoas LGBT+ em outros espaços e sistemas de conhecimento.

Terror das formas desafia normas de gênero

A terceira linha curatorial recebe o título Terror das formas.

O núcleo parte da ideia de terrorismo de gênero, expressão utilizada na mostra como sinônimo de desobediência às normas que determinam quais corpos, comportamentos e expressões devem ser considerados legítimos.

As obras confrontam expectativas sobre masculinidade, feminilidade, sexualidade e aparência.

Em vez de reproduzir uma gramática artística organizada por padrões fixos, os trabalhos criam outras visualidades, misturam linguagens e recusam classificações estáveis.

Integram essa parte da exposição:

  • Antonio Breno;
  • Bárbara Banida;
  • Camila Albuquerque;
  • Céu Vasconcelos;
  • Gi Monteiro;
  • Jonas Pinheiro;
  • plantomorpho.

A desobediência aparece não como destruição gratuita, mas como criação de alternativas para pessoas que não se reconhecem nas formas de existência impostas socialmente.

Obras expõem efeitos da projeção do medo

A concepção da mostra também dialoga com a ideia de que grupos sociais projetam medos e conflitos sobre pessoas consideradas diferentes.

Ao classificar o outro como anormal, perigoso ou monstruoso, a sociedade reforça a própria imagem de normalidade.

O cinema e a literatura de terror frequentemente transformam ansiedades coletivas em monstros, criaturas deformadas, invasores ou corpos incontroláveis.

Terror celestial desloca essa operação. As figuras que normalmente ocupariam o lugar da ameaça passam a controlar a própria narrativa.

Esse movimento permite examinar quem define o que deve causar medo e quais interesses são protegidos quando determinados corpos são apresentados como perigosos.

Acessibilidade amplia a experiência da visita

A exposição conta com recursos destinados a pessoas com diferentes necessidades de comunicação e percepção.

Entre as ferramentas estão:

  • conteúdos em Libras;
  • audiodescrição;
  • prancha de comunicação alternativa;
  • materiais digitais acessados por QR Code;
  • apoio da equipe educativa.

Os recursos permitem que informações sobre as obras, os artistas e os eixos curatoriais sejam acessadas por públicos que encontram barreiras em exposições baseadas apenas em textos impressos e estímulos visuais.

A acessibilidade, contudo, precisa alcançar também a circulação física, a formação das equipes e a autonomia do visitante dentro do espaço.

A presença de ferramentas digitais amplia o acesso, mas não substitui a manutenção contínua dos equipamentos e o acompanhamento de profissionais preparados.

Museu ocupa complexo cultural de Fortaleza

O Museu de Arte Contemporânea do Ceará integra o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, localizado na Rua Dragão do Mar, 81, na Praia de Iracema.

O complexo reúne museus, cinema, teatro, planetário e outros espaços voltados à produção e difusão cultural em Fortaleza.

Antes da visita, o público deve conferir nos canais oficiais os horários atualizados das exposições e eventuais alterações de funcionamento.

Arte disputa quem pode definir o monstruoso

Terror celestial não tenta apagar a experiência do medo vivida por pessoas LGBT+.

A exposição transforma esse repertório em matéria artística e devolve aos próprios sujeitos a capacidade de criar imagens sobre seus corpos, crenças e identidades.

O gesto curatorial também questiona uma estrutura social que chama de monstruoso aquilo que não consegue controlar ou enquadrar.

Quando artistas incorporam quimeras, seres híbridos e formas desobedientes, eles deixam de ocupar apenas o lugar de vítimas da classificação.

Passam a decidir o que o monstro significa, como ele aparece e quais mundos pode criar.

Relacionadas, fontes e documentos:

Renato Machado morre aos 83 anos no Rio de Janeiro (Fonte em Foco)
Foto de pássaros vira ouro no Cannes Lions de 2026 (Fonte em Foco)
Exposição no Rio debate mineração de lítio (Fonte em Foco)
Comunidade mantém fogueira de Xangô há mais de 150 anos (Fonte em Foco)
Exposição chinesa reúne 10 mil anos de história no Rio (Fonte em Foco)
– Terror celestial reúne artistas LGBT+ no MAC Dragão (Agência Brasil)

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