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Neutralizados leva memória da Maré ao palco em Caxias

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Espetáculo “Neutralizados” aborda a memória da Maré e a militarização nas favelas, em Duque de Caxias

A história recente da Maré será levada ao palco nesta sexta-feira (6) por artistas que conhecem o território não apenas como objeto de discussão, mas como lugar de vida, memória e criação. O espetáculo Neutralizados, do Coletivo de Teatro da Maré, será apresentado às 20h no Teatro Firjan SESI Caxias, em Duque de Caxias, com entrada gratuita. A sessão terá intérprete de Libras, duração de 60 minutos e classificação indicativa de 12 anos.

A montagem revisita a ocupação militar do Complexo da Maré iniciada em 2014 e utiliza esse episódio como ponto de partida para discutir segurança pública, liberdade de expressão e a forma como as favelas são apresentadas para quem vive fora delas. Ao mesmo tempo, a peça se recusa a resumir esses territórios à violência e coloca no palco o samba, o humor, a ancestralidade e as relações construídas no cotidiano.

Ocupação de 2014 serve de ponto de partida

A presença das Forças Armadas na Maré começou em abril de 2014, durante a Operação São Francisco, realizada em um período marcado pelos preparativos para a Copa do Mundo no Brasil. É a partir dessa experiência histórica que Neutralizados constrói sua narrativa e questiona os efeitos da militarização sobre a vida e a comunicação dentro das favelas.

O espetáculo não pretende apenas reconstruir cronologicamente aquele período. A proposta é observar como uma operação de segurança pode ser lembrada de maneira muito diferente dependendo de quem conta a história. Para os artistas, a experiência de quem mora no território precisa ocupar o centro dessa narrativa.

A encenadora Renata Tavares explica que esse contraste orienta a própria linguagem do espetáculo. A plateia é colocada diante de momentos de tensão, mas também daquilo que ela considera fascinante na experiência de viver na favela.

Essa convivência entre extremos evita uma representação em que a Maré aparece apenas como cenário de conflito. O que está em jogo é também o direito de seus moradores de definir quais imagens, memórias e experiências representam o lugar onde vivem.

Livro sobre militarização inspira a dramaturgia

A criação de Neutralizados dialoga com o livro Militarização e Censura – a luta pela liberdade de expressão na Favela da Maré, da jornalista e comunicadora Gizele Martins. A obra nasceu de uma pesquisa sobre os efeitos da militarização na comunicação comunitária e sobre as dificuldades enfrentadas por moradores e comunicadores para narrar o próprio território.

Ao levar essa discussão para o teatro, a montagem transforma pesquisa, memória e experiência cotidiana em linguagem cênica. Palavra, música, projeções, jogos de cena e elementos audiovisuais são utilizados para apresentar diferentes camadas de uma mesma favela.

A pergunta que atravessa a peça não se limita ao que aconteceu durante a ocupação militar. Ela alcança uma discussão maior sobre quem tem autoridade para construir a imagem de um território popular.

É também por isso que o espetáculo questiona a associação automática entre favela e perigo. A violência aparece na narrativa, mas não recebe o direito de definir sozinha quem são as pessoas que vivem ali.

Artistas da Maré contam a própria história

O Coletivo de Teatro da Maré reúne artistas do complexo e de outros territórios populares do Rio de Janeiro. A dramaturgia é de Matheus Frazão, enquanto Renata Tavares responde pela encenação e pela dramaturgia musical.

No elenco estão Carlos Emanoel, Heloiza Cintra, Jade Cardozo, Kátiaa Deusa e Thiago Manzotti. Matheus Tavares assina a trilha e participa como músico.

A origem dos artistas é parte essencial da proposta porque Neutralizados fala da favela a partir de vozes que mantêm relação direta com essa realidade. Essa escolha não elimina outras leituras possíveis sobre segurança pública, mas desloca o ponto de observação para quem costuma aparecer nas notícias como personagem e raramente como autor da narrativa.

Para Matheus Frazão, a favela convive simultaneamente com a violência e com uma vida cultural que não pode ser apagada por ela. O dramaturgo destaca elementos como samba, religiosidade, coletividade e a relação dos moradores com a rua como extensões dessa experiência.

A montagem trabalha justamente com essa tensão. A favela que aparece sob operações policiais e militares também é a favela que produz música, memória, amizade, humor e formas próprias de ocupar a cidade.

Arte contesta a imagem única da favela

Uma das escolhas centrais de Neutralizados é confrontar a ideia de que existe apenas uma maneira de narrar territórios como a Maré. Essa imagem costuma ser construída por notícias sobre confrontos, operações de segurança e criminalidade, elementos reais do cotidiano, mas incapazes de explicar sozinhos a complexidade de uma comunidade.

Quando a violência ocupa todo o enquadramento, milhares de vidas passam a ser conhecidas apenas pelo que acontece ao redor delas. Relações familiares, produção artística, festas, trabalho, redes de solidariedade e a própria memória comunitária desaparecem desse retrato.

O teatro permite fazer o movimento contrário. Em vez de retirar esses elementos considerados cotidianos para chegar ao conflito, Neutralizados coloca ambos lado a lado.

Isso ajuda a compreender a escolha de Renata Tavares por alternar cenas de tensão com outras de alegria e encantamento. O contraste não ameniza a violência; ele impede que a violência se aproprie de toda a identidade do território.

Quando moradores deixam de ser personagens e passam a narradores

Talvez uma das questões mais importantes levantadas por Neutralizados esteja menos no episódio histórico que inspira a peça e mais no direito de contar a própria história. Durante décadas, favelas brasileiras foram narradas principalmente de fora para dentro, por governos, forças de segurança, pesquisadores, meios de comunicação e pessoas que não vivem nesses territórios.

Esses olhares podem produzir informações importantes. O problema aparece quando se tornam os únicos disponíveis.

Uma comunidade não é apenas aquilo que alguém observa de fora dela. Há memórias, códigos, afetos e contradições que dificilmente aparecem quando seus moradores entram na narrativa somente como vítimas, suspeitos ou números de uma operação.

Quando artistas da própria Maré ocupam o palco, o espectador deixa de receber apenas uma história sobre a favela e passa a ouvir uma história produzida a partir dela.

Essa mudança parece sutil, mas altera profundamente o lugar de fala dentro da cena. O morador não está ali apenas para ser interpretado. Ele também interpreta o mundo em que vive.

Memória também é uma forma de disputar a cidade

A discussão proposta pelo espetáculo vai além de preservar lembranças. Memória também influencia a maneira como uma sociedade compreende determinado território e, consequentemente, as políticas que considera aceitáveis para aquele espaço.

Se uma favela é lembrada apenas por confrontos e operações, torna-se mais fácil enxergá-la exclusivamente como problema de segurança. Quando entram nessa memória a cultura, a história dos moradores, a produção artística e as relações comunitárias, a compreensão da cidade fica necessariamente mais complexa.

Essa complexidade é importante porque segurança pública e direito à cidade não precisam ser tratados como assuntos incompatíveis. Moradores de favelas também desejam segurança, mas isso não significa que suas experiências sobre a forma como políticas de segurança são executadas devam desaparecer do debate.

A arte não resolve esse conflito e nem tem essa obrigação. O que ela pode fazer é criar espaço para perguntas que normalmente não cabem em uma estatística ou em um balanço de operação.

Um palco pode preservar aquilo que o tempo apaga

A ocupação militar da Maré aconteceu há mais de uma década. Para uma geração mais jovem, 2014 já pertence a um período que não foi necessariamente vivido com consciência do que estava acontecendo.

É aí que o teatro também funciona como ferramenta de memória.

Transformar experiências daquele período em espetáculo permite que lembranças individuais circulem e sejam discutidas coletivamente. A plateia pode concordar, discordar, se incomodar ou reconhecer situações, mas é convidada a entrar em contato com uma perspectiva que nasceu dentro do território afetado.

Essa possibilidade é especialmente relevante quando a produção cultural consegue circular para além da própria comunidade.

A apresentação em Duque de Caxias coloca a experiência da Maré diante de outro público da Região Metropolitana e amplia o alcance de uma narrativa construída por artistas periféricos.

Cultura periférica também é produção de conhecimento

Há um ponto em Neutralizados que ultrapassa a programação cultural de uma noite: a ideia de que uma favela não produz apenas arte, mas também conhecimento sobre a cidade.

Quem vive diariamente em um território submetido a diferentes políticas de segurança percebe efeitos que dificilmente aparecem inteiros nos documentos oficiais. Ao mesmo tempo, essa experiência não pode ser tomada como única explicação possível para um problema tão complexo.

É justamente no encontro entre perspectivas que a cultura pode abrir espaço para compreensão.

A peça apresenta um lado dessa conversa, assumidamente construído por artistas ligados aos territórios populares. Sua força está menos em oferecer uma resposta pronta e mais em obrigar o público a perceber que toda narrativa tem um ponto de observação.

Quando a Maré sobe ao palco para contar a própria memória, ela reivindica algo elementar em qualquer sociedade democrática: o direito de participar da construção da história que será contada sobre ela.

Serviço

Espetáculo: Neutralizados
Data: 6 de novembro de 2026
Horário: 20h
Local: Teatro Firjan SESI Caxias
Endereço: Rua Arthur Neiva, 100, Centro, Duque de Caxias (RJ)
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Entrada: gratuita
Acessibilidade: intérprete de Libras
Divulgação: @ drumondcom

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