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Selic fica em 13,75% e mantém crédito sob pressão

Publicado em

Reportagem:
Fabíola Fonseca

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Banco Central interrompe sequência de cortes diante de inflação e incertezas maiores

O Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano e interrompeu uma sequência de cinco cortes consecutivos iniciada em março. A decisão, tomada por unanimidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom), reflete um cenário em que inflação acima da meta, câmbio mais pressionado, incertezas externas e sinais de desaceleração da economia passaram a exigir mais cautela.

A taxa básica havia permanecido em 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026. Depois disso, o Copom reduziu os juros em etapas de 0,25 ponto percentual até chegar aos atuais 13,75%.

A manutenção significa que o Banco Central preferiu interromper temporariamente o alívio dos juros em vez de continuar barateando o crédito enquanto aumentam os riscos de novas pressões sobre os preços.

Inflação ainda impede uma redução mais rápida dos juros

O principal obstáculo para cortes mais acelerados continua sendo a inflação. A meta perseguida pelo Banco Central é de 3%, com margem de tolerância entre 1,5% e 4,5%.

Em outubro, o IPCA-15 avançou 0,32%. No acumulado em 12 meses, a prévia da inflação chegou a 4,62%, ligeiramente acima do teto da meta.

O IPCA cheio de setembro acumulava alta de 4,58% em 12 meses.

Mesmo com a desaceleração observada em alguns preços, a inflação permanece acima do nível considerado confortável para o Banco Central. Além disso, as expectativas do mercado para os próximos períodos voltaram a subir.

No levantamento Focus mais recente disponível antes da decisão, instituições financeiras projetavam inflação de 5,22% em 2026 e de 4,76% em 2027.

O próprio Copom passou a trabalhar, em seu cenário de referência, com projeção de 5,6% para 2026 e 4,7% para 2027.

Expectativas também pesam na decisão

O Banco Central não observa apenas a inflação que já aconteceu; ele tenta antecipar para onde os preços podem caminhar.

Essa lógica é importante porque empresas e consumidores tomam decisões olhando para o futuro.

Se comerciantes acreditam que seus custos aumentarão, podem reajustar preços. Se trabalhadores esperam inflação mais alta, tendem a buscar recomposição salarial. Empresas podem rever contratos e investimentos.

Quando a expectativa de inflação sobe, ela própria pode ajudar a manter a pressão sobre os preços.

É por isso que o Copom acompanha com atenção aquilo que chama de desancoragem das expectativas: o afastamento prolongado das projeções em relação à meta oficial.

Câmbio e cenário internacional aumentaram a incerteza

A cotação do dólar passou a ocupar uma posição ainda mais importante nas decisões sobre os juros.

Um real mais fraco torna produtos importados mais caros e pode elevar custos de matérias-primas, máquinas, medicamentos, combustíveis e outros itens usados na produção nacional.

Parte desses custos pode chegar ao consumidor.

No Focus, a projeção para o dólar no fim de 2026 subiu para R$ 5,34.

O câmbio não determina sozinho a inflação, mas uma desvalorização persistente pode tornar o trabalho do Banco Central mais difícil.

O ambiente externo também ficou mais adverso com a continuidade dos conflitos no Oriente Médio e as pressões sobre petróleo e outras commodities.

O Copom passou a considerar ainda os possíveis efeitos de fenômenos climáticos sobre produção agrícola, energia e preços.

El Niño entra no cálculo dos alimentos e da energia

Eventos climáticos podem afetar diretamente aquilo que chega à mesa das famílias.

Alterações de chuva, temperatura e produtividade agrícola podem reduzir determinadas safras, aumentar custos de produção e pressionar preços de alimentos.

O mesmo vale para o setor energético, dependendo do impacto sobre reservatórios e geração de eletricidade.

Esses efeitos não são automáticos nem iguais em todas as regiões, mas entram no conjunto de riscos avaliados pela política monetária.

Para o Banco Central, cortar juros enquanto esses riscos aumentam poderia estimular o consumo em um momento no qual a inflação ainda não está plenamente controlada.

Economia já mostra sinais de desaceleração

A cautela com a inflação ocorre justamente quando a atividade econômica começa a perder força.

O Banco Central reduziu para 1,8% sua estimativa de crescimento da economia em 2026 no último Relatório de Política Monetária.

O mercado financeiro é um pouco mais pessimista.

A projeção do Focus para o crescimento do Produto Interno Bruto caiu para 1,76%, após sucessivas revisões para baixo.

Esse cenário coloca o Copom diante de uma escolha delicada: manter juros elevados ajuda a segurar preços, mas também aumenta o peso sobre consumo, investimentos e crescimento.

É justamente essa tensão que explica a pausa nos cortes.

O Banco Central tenta evitar que a redução dos juros aconteça rápido demais e reacenda a inflação, sem ignorar que uma política monetária muito restritiva por tempo prolongado também cobra um preço da economia.

O que a Selic de 13,75% faz com o crédito

A Selic não é a taxa que aparece diretamente no financiamento de um carro, no empréstimo pessoal ou no cartão de crédito, mas influencia todo esse sistema.

Ela funciona como referência para o custo do dinheiro na economia.

Quando permanece elevada, bancos e instituições financeiras operam em um ambiente em que o dinheiro custa mais.

As taxas finais oferecidas ao consumidor incluem ainda risco de inadimplência, custos administrativos, impostos, margem financeira e características de cada modalidade.

Por isso, uma Selic de 13,75% ajuda a manter empréstimos e financiamentos caros, embora não determine sozinha quanto cada pessoa pagará.

Para famílias endividadas, isso pode dificultar renegociações e contratação de novos créditos.

Para quem pretende comprar um imóvel ou veículo financiado, parcelas e custo total da operação tendem a permanecer mais pesados do que seriam em um ambiente de juros básicos mais baixos.

Empresas também sentem a manutenção dos juros

O efeito não termina no orçamento doméstico.

Empresas utilizam crédito para comprar máquinas, formar estoques, ampliar unidades, contratar trabalhadores ou simplesmente financiar o capital necessário para manter as operações.

Quanto maior o custo do dinheiro, mais projetos deixam de oferecer retorno suficiente para justificar o investimento.

Uma empresa pode adiar uma expansão não porque deixou de enxergar oportunidades, mas porque o financiamento ficou caro demais.

Esse mecanismo ajuda a reduzir a demanda e, com o tempo, a inflação.

Mas também contribui para desacelerar a produção e o crescimento.

É justamente por isso que política monetária envolve escolhas difíceis: o mesmo juro que ajuda a esfriar preços pode esfriar também atividade e emprego.

Quem poupa vive uma situação diferente

Juros elevados não produzem apenas perdedores.

Aplicações financeiras ligadas à Selic ou ao CDI tendem a permanecer mais atrativas em um ambiente de taxa básica elevada.

Tesouro Selic, CDBs e outros investimentos pós-fixados podem oferecer rendimentos nominais maiores.

Para quem possui recursos disponíveis para investir, esse cenário pode ser favorável.

A mesma taxa que encarece o dinheiro de quem precisa pedir emprestado aumenta a remuneração de quem consegue emprestar recursos ao sistema financeiro.

Essa diferença ajuda a compreender por que os efeitos da Selic não são distribuídos igualmente pela sociedade.

Por que o Banco Central decidiu parar antes de cortar mais

O juro alto funciona como um freio, mas ninguém quer dirigir com o freio acionado para sempre

A melhor forma de compreender a decisão é imaginar a Selic como um freio usado para diminuir a velocidade da economia quando os preços estão subindo rápido demais.

Quanto mais forte o freio, mais caro fica consumir a crédito, investir ou financiar atividades.

As famílias tendem a adiar algumas compras. Empresas ficam mais cautelosas. A demanda perde força.

Com menos pressão sobre produtos e serviços, a inflação tende a desacelerar.

O problema aparece quando esse freio precisa permanecer acionado por muito tempo.

Juros altos também tornam mais difícil financiar uma casa, reorganizar uma dívida, investir em um pequeno negócio ou ampliar uma empresa.

Por isso, reduzir a Selic é desejável quando a inflação permite.

A dificuldade do momento atual é que os sinais apontam em direções diferentes.

A atividade econômica desacelera, o que recomendaria juros menores. Ao mesmo tempo, expectativas de inflação, câmbio e riscos externos recomendam prudência.

A inflação baixa também é uma política para a vida cotidiana

Para o cidadão, o debate sobre juros pode parecer distante até chegar ao supermercado, à prestação ou ao limite do banco.

Manter a inflação sob controle protege especialmente quem possui menos espaço no orçamento.

Uma família de renda alta pode adaptar parte dos gastos quando os preços sobem. Para quem já compromete quase toda a renda com alimentação, moradia, transporte e energia, cada aumento pesa imediatamente.

É por isso que controlar a inflação também possui uma dimensão social.

O problema é que o próprio remédio utilizado para combater os preços — juros elevados — pode pesar justamente sobre famílias e pequenos negócios que dependem de crédito.

Essa é a contradição central da política monetária.

Não existe um botão que reduza inflação sem produzir efeitos em outras partes da economia.

A pausa nos cortes compra tempo para o Banco Central

Manter a Selic em 13,75% significa, sobretudo, esperar por mais informações antes de escolher o próximo movimento.

O Copom ainda receberá novos números de inflação, atividade econômica, câmbio e expectativas antes da reunião seguinte.

Se os preços e as projeções voltarem a mostrar melhora consistente, o espaço para novos cortes pode aumentar.

Se as pressões inflacionárias persistirem ou piorarem, a taxa poderá permanecer elevada por mais tempo.

Para famílias e empresas, isso significa que uma redução mais clara do custo do crédito provavelmente dependerá de uma melhora mais convincente do cenário inflacionário.

E aqui está o ponto que mais importa fora dos gabinetes econômicos.

Quando a Selic muda, seus efeitos levam tempo para chegar ao cidadão. Bancos precisam rever taxas, contratos vencem, novos financiamentos são negociados e decisões de consumo e investimento mudam gradualmente.

Por isso, a manutenção anunciada agora não congela cada taxa cobrada no país.

Ela sinaliza que o dinheiro continuará caro enquanto o Banco Central considerar que reduzir o freio traz risco maior do que mantê-lo.

Essa escolha protege a tentativa de devolver a inflação à meta, mas prolonga um ambiente difícil para quem precisa financiar consumo, investir ou reorganizar dívidas.

O desafio é encontrar o momento em que o controle dos preços permita começar a aliviar esse peso sem trazer a inflação de volta.

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