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quinta-feira, 4 junho 2026, 10:58
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Arte indígena transforma ATL em vitrine de resistência

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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No Acampamento Terra Livre, pintura e artesanato contam histórias de território e sobrevivência

Entre barracas, corredores e espaços de circulação do Acampamento Terra Livre 2026, em Brasília, a arte indígena ganhou centralidade como linguagem de memória, identidade e resistência. Pinturas corporais com jenipapo, esculturas em madeira, colares, esteiras e cocares apresentados por indígenas de diferentes povos ocuparam o encontro nacional em meio à mobilização por demarcação de terras e outras políticas públicas. O ATL 2026 ocorre de 5 a 11 de abril, no Eixo Cultural Ibero-Americano, com expectativa superior a 7 mil participantes, embora o relato que circula a partir do acampamento também mencione mais de 6 mil pessoas já presentes no ato.

Um dos retratos mais simbólicos desse ambiente vem de Nhak Krere Xikrin, de 26 anos, indígena da aldeia ô-ôdja, no sudeste do Pará. Com tinta preta produzida a partir de jenipapo e uma tala fina de madeira usada como pincel, ela oferece aos interessados dezenas de grafismos para rostos, braços e pernas. O saber, segundo o relato, foi aprendido com a mãe e a avó e deve seguir adiante com as filhas. A cena ajuda a explicar que, no ATL, arte não aparece como adorno folclórico, mas como transmissão viva de conhecimento ancestral.

Artesanato vira renda, narrativa e defesa do território

Nos espaços de demonstração cultural, artesãos de aldeias do Alto Xingu, em Mato Grosso, exibem peças e, ao mesmo tempo, explicam que o trabalho manual passou a cumprir função econômica cada vez mais importante diante da pressão sobre o território e da instabilidade na produção agrícola. Lideranças indígenas ouvidas no acampamento relatam impactos de fazendeiros no entorno das aldeias, avanço de agrotóxicos e mudanças no regime de chuvas, fatores que alteram o calendário de plantio e pressionam o modo de vida comunitário.

Nesse contexto, o artesanato deixa de ser apenas expressão estética. Ele passa a servir como ponte com o público urbano, fonte complementar de renda e instrumento de visibilidade para necessidades que muitas vezes ficam fora do radar institucional. A arte, nesse caso, não pede licença para existir: ela entra em cena como documento cultural, sustento material e recado político ao mesmo tempo.

Cada peça carrega fauna, memória e denúncia

Entre os trabalhos apresentados no acampamento estão esculturas em madeira com figuras de tamanduá, onça, capivara, quati, anta, arara e gavião, além de esteiras de fibra de buriti, cocares e colares com forte dimensão simbólica. Artesãos relatam que as obras narram a história de seus povos e ajudam a defender valores ligados à proteção ambiental. Em várias falas, a preservação da natureza aparece como parte inseparável da própria sobrevivência indígena.

A simbologia ambiental também atravessa os relatos sobre rios contaminados, presença de garimpeiros e dificuldade de acesso a algumas aldeias, alcançadas apenas por via fluvial ou aérea. Assim, cada peça vendida ou exibida no ATL carrega mais do que técnica e acabamento: ela leva junto uma geografia ameaçada, um modo de vida pressionado e a tentativa de ampliar, para o restante do país, a escuta sobre o que acontece nos territórios indígenas.

ATL mistura mobilização política e afirmação cultural

O Acampamento Terra Livre é organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e chega em 2026 à sua 22ª edição, com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”. A programação reúne plenárias, atos públicos, marchas e atividades culturais em torno de pautas como demarcação, defesa dos territórios e enfrentamento a projetos considerados ameaçadores aos direitos indígenas. Nesse cenário, a presença da arte nos corredores do acampamento funciona como extensão da própria mobilização: não é um apêndice do evento, mas parte do seu discurso central.

Mais que estética, uma forma de permanência

O que se vê no ATL é uma disputa por visibilidade em que a arte ocupa papel decisivo. Pintura corporal, talha em madeira, adornos e trançados ajudam a contar histórias que nem sempre cabem em ofícios, audiências ou discursos oficiais. Ao mesmo tempo, afirmam continuidade cultural diante de pressões territoriais, econômicas e ambientais. Em outras palavras, o artesanato e a pintura que circulam pelo acampamento não estão ali apenas para serem admirados. Estão ali para lembrar que resistência, entre os povos indígenas, também se desenha, se entalha e se veste.

Fontes e documentos:

Em Brasília, artesãos indígenas veem obras como ação de resistência (Agência Brasil)
– Acampamento Terra Livre 2026 deve reunir mais de 7 mil participantes (Agência Brasil)
– Acampamento Terra Livre inicia atividades do Abril Indígena, em Brasília (Cimi)
– Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós é tema do ATL 2026 (Apib)

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