Queda dos roubos em ônibus reduz medo de quem depende do transporte no DF
Os roubos em transporte coletivo no Distrito Federal caíram 52% em 2025, com 111 ocorrências registradas ao longo do ano, contra 230 casos em 2024. Além disso, 15 regiões administrativas não tiveram nenhum registro desse tipo de crime, segundo o 2º Anuário de Segurança Pública do DF. O dado interessa menos pelo número frio e mais pelo que ele representa na vida de quem sai cedo para trabalhar, volta tarde para casa e por muito tempo entrou no ônibus já calculando onde esconder o celular.
A redução não surgiu de uma única medida. O recuo foi associado pelo governo à integração entre forças de segurança, ao uso de tecnologia, ao trabalho de inteligência e a mudanças na gestão do sistema de transporte, como o fim do pagamento em dinheiro dentro dos ônibus. A combinação ajudou a diminuir a atratividade de assaltos e furtos em veículos que, até pouco tempo atrás, circulavam com arrecadação em espécie a bordo.
Menos dinheiro a bordo, menos interesse para o crime
Desde dezembro de 2024, o sistema de transporte coletivo do DF passou a operar de forma 100% digital, com pagamento por cartões de transporte, cartões bancários ou bilhete avulso por QR Code. Antes da mudança, cerca de 29% das passagens ainda eram pagas em dinheiro. A retirada da arrecadação em espécie dos ônibus reduziu um dos alvos mais imediatos para criminosos.
A medida não elimina, sozinha, crimes como furtos de celulares ou roubos a passageiros. Mas altera a lógica de oportunidade. Quando o ônibus deixa de transportar dinheiro vivo diariamente, desaparece uma parcela importante do ganho rápido que historicamente atraiu assaltantes ao sistema. É uma mudança operacional com efeito concreto: o que antes era caixa circulante passou a ser dado digital. E ladrão, como a maioria dos agentes econômicos, também faz conta.
O secretário de Segurança Pública interino, Alexandre Patury, atribuiu parte da melhora ao uso de inteligência para identificar grupos que atuavam dentro dos coletivos, especialmente em crimes contra passageiros. Segundo ele, a redução acumulada entre 2016 e 2025 chegou a 96%, em movimento associado também à ampliação do monitoramento e à incorporação de novas tecnologias.
Câmeras e dados ampliam resposta das forças de segurança
Todos os ônibus e terminais rodoviários do DF são monitorados por câmeras, e as imagens passaram a integrar de forma mais ampla a cooperação entre a Secretaria de Transporte e Mobilidade e a Secretaria de Segurança Pública. Em 2025, essa integração foi expandida para incluir informações sobre rotas, localização de veículos, motoristas e passageiros, inclusive de táxis e carros por aplicativo.
O avanço se conecta à ampliação da plataforma DF 360, que passou a incorporar reconhecimento facial e integração com bancos de mandados de prisão, permitindo alertas em tempo real quando pessoas procuradas são identificadas por câmeras conectadas ao sistema. A promessa é de resposta mais rápida, embora a efetividade dependa da qualidade dos dados, da cobertura das câmeras e do uso responsável dessas ferramentas.
Tecnologia ajuda, mas não substitui presença do Estado. Câmera sem equipe, dado sem análise e sistema sem resposta viram apenas arquivo bonito depois do crime. O ganho aparece quando a informação encurta o tempo entre a ocorrência e a ação policial.
Queda altera rotina de motoristas e passageiros
O impacto da redução aparece no cotidiano de quem trabalha e circula pelo sistema. O motorista Wemerson Guimarães, há 14 anos na profissão, relatou já ter sido assaltado com arma de fogo e descreveu o efeito psicológico de situações violentas dentro dos veículos. Para ele, o fim do dinheiro a bordo trouxe mais segurança e também melhorou a operação, ao eliminar arrecadação manual e agilizar o embarque.
Entre os usuários, a percepção também mudou. A diarista Rosa de Sousa, moradora de Água Quente, afirmou que hoje anda com mais tranquilidade e já não ouve relatos frequentes de assaltos dentro dos ônibus. O aposentado Edson dos Santos, morador do Areal, disse não ter presenciado ocorrências no período em que utiliza o sistema. Esses depoimentos não substituem estatística, mas mostram a dimensão social do dado: segurança pública se mede também pelo direito de ir e vir sem carregar medo no colo.
Quinze regiões não registraram roubos em coletivos
O anuário aponta que 15 regiões administrativas não tiveram registros de roubos em transporte coletivo ao longo de 2025. O dado sugere melhora disseminada, e não apenas concentrada em um corredor ou região específica. Ainda assim, a ausência de ocorrência registrada não equivale automaticamente à ausência de risco, já que subnotificação e dinâmica territorial também precisam ser consideradas em qualquer leitura mais ampla sobre segurança.
Por isso, a queda deve ser tratada como avanço, não como ponto de chegada. Reduzir roubos é importante. Reduzir o medo que reorganiza a vida das pessoas também é. Quem muda de horário, evita determinada linha ou segura o celular com o corpo inteiro não está apenas reagindo a um crime eventual; está tendo sua liberdade cotidiana diminuída.
Segurança melhora quando política pública deixa de agir no escuro
A redução dos roubos em ônibus mostra o valor de políticas construídas com base em dados, integração institucional e mudanças práticas no funcionamento do serviço público. Não há glamour em retirar dinheiro do ônibus, cruzar imagens ou mapear rotas de grupos criminosos. Mas são justamente essas decisões pouco cinematográficas que costumam produzir resultado mais duradouro.
O desafio agora é sustentar a queda, ampliar o monitoramento com controle público e garantir que a melhora chegue a toda a rede, inclusive nos horários e trajetos de maior vulnerabilidade. Segurança de verdade não é aquela que aparece apenas no anuário. É a que permite ao trabalhador voltar para casa olhando a cidade pela janela, e não o reflexo de quem entra pela porta.
Fontes e documentos:
– DF reduz roubos e reforça meta de segurança pública (Fonte em Foco)
– Maio Amarelo reforça segurança no trânsito do DF (Fonte em Foco)
– Detran autua 64 infrações em vagas especiais no DF (Fonte em Foco)
– Roubos em ônibus caem 52% no Distrito Federal em 2025 (Agência Brasília)
– DF consolida política de segurança baseada em evidências com lançamento do 2º anuário (SSP-DF)
– Transporte coletivo do DF agora é 100% digital (Semob-DF)

