Erika Hilton diz que comissão terá de enfrentar sistema de opressão
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), recém-eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, afirmou que um dos principais desafios do colegiado será enfrentar o que definiu como um “sistema organizado de opressão, desigualdade, injustiça e ódio” contra grupos historicamente marginalizados. A declaração foi dada nesta segunda-feira (23), durante entrevista ao programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional. A eleição de Erika para a presidência da comissão ocorreu em 11 de março.
A parlamentar afirmou que pretende priorizar o enfrentamento à misoginia, à violência política e ao discurso de ódio intensificado em ambientes digitais, com impacto direto sobre mulheres, pessoas trans, crianças e outras minorias. Segundo ela, a democracia pressupõe diversidade e maior representação desses grupos nos espaços de poder.
Ação contra Fabiana Bolsonaro entra no centro do embate político
Erika Hilton também afirmou ter acionado a Justiça Eleitoral contra a deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL-SP), sustentando que houve uso indevido de cotas eleitorais destinadas à população negra, após a parlamentar se declarar parda em sua campanha. Erika trata o caso como fraude eleitoral, mas essa é, até aqui, uma acusação formulada por ela e não uma conclusão judicial.
O episódio ganhou dimensão maior depois da repercussão do uso de blackface por Fabiana Bolsonaro na Alesp. A prática foi alvo de forte crítica de Erika Hilton, que a classificou como racista, violenta e incompatível com qualquer limite aceitável da convivência democrática. O caso também gerou reação pública de outras parlamentares e repercussão nacional.
Presidência da comissão vira símbolo de disputa mais ampla
Ao responder às críticas recebidas por ser uma mulher trans à frente de uma comissão voltada aos direitos das mulheres, Erika afirmou que o conceito de mulher não pode ser reduzido a uma dimensão exclusivamente biológica. Na entrevista, ela sustentou que mulher é também um ser social, cultural, político e material.
A deputada também reagiu ao argumento de que não teria condições de presidir o colegiado, lembrando que, em outras esferas legislativas, comissões voltadas aos direitos das mulheres já foram ocupadas por homens sem que isso gerasse o mesmo tipo de contestação. O ponto central da fala é menos identitário do que institucional: quem tem compromisso real com a pauta das mulheres e quem usa o tema apenas como trincheira ideológica.
Violência digital e proteção de mulheres devem ganhar prioridade
Entre as prioridades anunciadas, Erika Hilton destacou a necessidade de o Legislativo avançar no enfrentamento à violência praticada no ambiente digital, que, segundo ela, transborda para o mundo real e alimenta fenômenos como cultura do estupro, feminicídio e ódio de gênero. A deputada também mencionou a cooptação de jovens em plataformas online e defendeu mais responsabilização, mecanismos de controle e proteção para pais, crianças, adolescentes e mulheres.
Esse eixo tende a ganhar espaço real na comissão. Documentos da própria Câmara já registram, sob a presidência de Erika Hilton, requerimentos relacionados a conteúdos que incitam violência contra mulheres e a providências sobre ambientes digitais de misoginia e exploração sexual. Isso indica que o discurso da posse começa a se traduzir em agenda legislativa concreta.
A comissão terá um teste político, não apenas retórico
A fala de Erika Hilton tem evidente carga política, mas não pode ser tratada como mera performance. A comissão que ela preside virou um ponto de choque entre dois projetos opostos: de um lado, a ampliação da proteção institucional a mulheres e grupos vulneráveis; de outro, a tentativa de restringir legitimidade, representação e alcance dessas pautas.
O desafio agora é transformar retórica de enfrentamento em resultado legislativo, fiscalização e articulação institucional. Comissão não existe para produzir frase de impacto. Existe para pautar projeto, pressionar governo, ouvir vítimas, constranger omissões e organizar resposta pública. Se Erika conseguir fazer isso, sua presidência terá peso real. Se ficar só no duelo simbólico, o país seguirá discutindo identidade enquanto a violência continua vencendo por WO.
Fontes e documentos:
– Comissão enfrentará “sistema organizado de opressão”, diz Erika Hilton (Agência Brasil)
– Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (Câmara dos Deputados)
– Erika Hilton defende total prioridade à proteção das mulheres do Brasil ao assumir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (Câmara dos Deputados)
– Deputada que fez blackface em SP declarou-se parda à Justiça Eleitoral (Agência Brasil)
– REQ n. 6/2026 Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (Câmara dos Deputados)
– REQ n. 7/2026 Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (Câmara dos Deputados)

