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Ovos do Aedes resistem à seca e mantêm alerta no DF

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

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Chuvas fora de época podem fazer ovos eclodirem e formar novos focos do mosquito

Recipientes que permaneceram secos durante meses podem voltar a representar risco após uma chuva ou o armazenamento doméstico de água. Os ovos do Aedes aegypti conseguem sobreviver por até 400 dias aderidos às paredes de baldes, vasos, tonéis e outros objetos, à espera de condições favoráveis para eclodir.

O alerta ganha importância no Distrito Federal diante da ocorrência de chuvas atípicas durante um período geralmente marcado pela redução das precipitações. Mesmo pequenas quantidades de água acumulada podem permitir o desenvolvimento das larvas e iniciar uma nova geração do mosquito.

O Aedes aegypti é responsável pela transmissão da dengue, da chikungunya e da zika. A espécie também é considerada vetor potencial da febre amarela urbana, ciclo de transmissão que não é registrado no Brasil desde 1942. Os casos atuais de febre amarela no país estão relacionados ao ciclo silvestre, transmitido principalmente por mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes.

“Esses ovos apresentam elevada resistência à dessecação e podem permanecer viáveis por vários meses aderidos às paredes internas de recipientes, mesmo completamente secos”, explica a bióloga da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, Kenia Cristina de Oliveira.

O frio reduz a atividade do mosquito, mas não elimina o risco

Temperaturas mais baixas tendem a diminuir a atividade e a velocidade de desenvolvimento do mosquito. Isso, porém, não significa que o ciclo seja completamente interrompido.

Os ovos podem permanecer no ambiente durante condições desfavoráveis. Dentro das residências, hábitos como armazenar água em baldes, regar plantas com frequência ou manter recipientes expostos também podem preservar pontos adequados à reprodução.

“Recipientes aparentemente secos durante a estiagem têm potencial de representar importantes reservatórios de ovos, favorecendo o aumento populacional do vetor com chuvas atípicas ou logo nas primeiras chuvas da estação seguinte”, afirma Kenia.

Em condições favoráveis, o ciclo entre o ovo e o mosquito adulto pode ser concluído em aproximadamente sete a dez dias. Por isso, a recomendação é realizar uma inspeção na residência e nas áreas externas pelo menos uma vez por semana.

A prevenção não depende apenas da retirada da água visível. Quando possível, os recipientes devem ser lavados com escova ou esponja para remover os ovos aderidos às superfícies internas.

Inspeção semanal deve alcançar áreas internas e externas

A verificação precisa incluir quintais, jardins, varandas, áreas de serviço, garagens e espaços pouco utilizados. Objetos protegidos da chuva também merecem atenção, porque podem receber água durante a limpeza, a irrigação de plantas ou o armazenamento doméstico.

Entre os principais cuidados estão:

  • manter caixas-d’água e reservatórios completamente tampados;
  • limpar calhas, ralos e canaletas;
  • eliminar água acumulada em vasos e pratos de plantas;
  • guardar baldes e garrafas com a abertura voltada para baixo;
  • trocar e higienizar a água dos bebedouros de animais;
  • manter piscinas limpas e tratadas;
  • descartar pneus, embalagens e materiais sem utilização;
  • verificar recipientes usados para irrigação e armazenamento de água.

Baldes, tonéis, vasos, bebedouros, lonas e peças abandonadas podem acumular água suficiente para o desenvolvimento do mosquito. A lista dos criadouros é pouco sofisticada. O problema é justamente esse: muitos deles fazem parte da rotina das residências e deixam de ser percebidos.

Um checklist de prevenção contra a dengue pode ajudar moradores a organizar a inspeção semanal.

“O período de frio e seca é estratégico para intensificar as ações preventivas, reduzir a quantidade de ovos presentes no ambiente e minimizar o risco de aumento da transmissão da dengue no próximo período chuvoso”, ressalta a bióloga.

Monitoramento combina visitas, armadilhas e novas tecnologias

A Diretoria de Vigilância Ambiental em Saúde mantém ações de acompanhamento e controle do mosquito durante todo o ano. O trabalho inclui inspeções em residências, estabelecimentos comerciais, terrenos baldios e locais considerados estratégicos, como borracharias, cemitérios e depósitos de materiais recicláveis.

As equipes também utilizam ovitrampas, recipientes instalados para detectar e monitorar a presença de ovos do mosquito nas regiões administrativas. Os dados ajudam a identificar áreas com maior circulação do vetor e a direcionar as ações de controle.

Outra frente envolve drones empregados na localização de possíveis criadouros em telhados, imóveis fechados e áreas de difícil acesso.

A Borrifação Residual Intradomiciliar consiste na aplicação de inseticida em superfícies internas de locais com grande circulação de pessoas, como escolas, unidades de saúde e estações de transporte. O produto permanece ativo durante determinado período e atinge mosquitos que pousam nas áreas tratadas.

As Estações Disseminadoras de Larvicida utilizam o próprio mosquito para transportar pequenas partículas do produto até recipientes que nem sempre são localizados pelos agentes. A estratégia complementa, mas não substitui, a eliminação dos criadouros.

O Distrito Federal também utiliza mosquitos com a bactéria Wolbachia, que reduz a capacidade de transmissão dos vírus da dengue, da zika e da chikungunya.

O mapa de incidência da dengue permite acompanhar a distribuição territorial dos registros da doença no DF.

Campanha percorreu quadras do Gama Leste

Nos dias 18 e 19 de junho, agentes de Vigilância Ambiental em Saúde e agentes comunitários de saúde participaram da campanha Junho sem Dengue na Região Sul do Distrito Federal.

As equipes visitaram imóveis das quadras 8, 10, 11 e 12 do Gama Leste para procurar possíveis criadouros e orientar os moradores sobre as medidas de prevenção.

Durante as visitas, os agentes também explicaram como separar materiais sem utilização capazes de acumular água. O recolhimento dos objetos está previsto para os dias 22 e 23 de junho, em ação do Serviço de Limpeza Urbana e da Administração Regional do Gama.

A mobilização foi organizada pelo Grupo Executivo Intersetorial de Gestão do Plano de Prevenção e Controle da Dengue da Região Sul, estrutura que reúne diferentes órgãos públicos para coordenar as atividades de enfrentamento às arboviroses.

Prevenção na seca reduz o risco no próximo período chuvoso

O controle do mosquito costuma receber maior atenção quando os casos aumentam ou quando as chuvas se tornam frequentes. A resistência dos ovos do Aedes, entretanto, mostra que parte do risco é formada meses antes.

Eliminar recipientes e remover ovos durante a seca reduz a quantidade de mosquitos que poderá surgir quando as chuvas retornarem. Essa antecipação também diminui a pressão sobre agentes ambientais, unidades de saúde e serviços de atendimento durante os períodos de maior transmissão.

Tecnologias de monitoramento e controle ampliam a capacidade de resposta do poder público, mas não alcançam sozinhas todos os recipientes presentes dentro dos imóveis. A inspeção semanal continua sendo a medida mais direta para interromper o ciclo do mosquito antes que ele chegue à fase adulta.

Relacionadas, fontes e documentos:

Feira leva capacitação e renda a Água Quente (Fonte em Foco)
Chuvas deixam 16 mil afetados e mortes na Paraíba (Fonte em Foco)
Checklist contra a dengue (SES-DF)
– Mosquito Aedes aegypti em períodos de seca (Ministério da Saúde)
– Ciclo de vida do Aedes aegypti (Ministério da Saúde)
– Mosquitos transmissores da febre amarela (Instituto Oswaldo Cruz)

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