Programa amplia abordagem a pessoas vulneráveis e leva tenda para a 702 Sul
O Acolhe DF ultrapassou a marca de 800 atendimentos a pessoas em situação de vulnerabilidade social em dez meses de atuação. Coordenado pela Secretaria de Justiça e Cidadania, o programa registrou 806 atendimentos até 20 de maio, com 279 encaminhamentos voluntários para unidades terapêuticas conveniadas e fiscalizadas pela pasta.
Acolhe DF atua com busca ativa e escuta nas ruas
O programa atende principalmente pessoas em situação de rua e com transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas. A proposta é combinar busca ativa, abordagem social humanizada, escuta qualificada e encaminhamento voluntário para tratamento.
Nos últimos 30 dias, foram contabilizados 106 atendimentos e 26 encaminhamentos para acolhimento e tratamento especializado. O número mostra ampliação da presença do programa em pontos estratégicos do Distrito Federal, mas também exige leitura cuidadosa. Em política social, atendimento é porta de entrada. O resultado real depende do que acontece depois dela.
O Acolhe DF foi criado para ampliar ações de prevenção, acolhimento, tratamento e reinserção social, com atuação voltada a pessoas em situação de rua e dependência química. A política prevê encaminhamento para a rede intersetorial e apoio à reconstrução de vínculos sociais e familiares.
Tenda itinerante chega à 702 Sul
Na última semana, a tenda itinerante do programa funcionou na Asa Norte, onde equipes ofereceram orientações à população, abordagens sociais e encaminhamentos a pessoas que aceitaram atendimento. A partir desta segunda-feira, 25 de maio, o serviço passa a funcionar na 702 Sul, ao lado da Igreja Dom Bosco.
A presença da tenda tem dupla função. De um lado, aproxima o serviço de quem precisa de apoio. De outro, cria um ponto de contato com moradores e comerciantes das regiões atendidas. Essa aproximação pode reduzir ruídos, mas precisa preservar um eixo central: vulnerabilidade social não é caso de paisagem urbana. É caso de política pública.
O morador da Asa Norte Carlos Eduardo Martins avaliou que a presença das equipes traz segurança para a comunidade e oferece oportunidade de ajuda para quem precisa. A leitura comunitária importa, mas o programa precisa evitar uma armadilha conhecida: transformar acolhimento em resposta apenas ao incômodo de quem vê a rua de fora.
Encaminhamento deve ser voluntário
A Sejus-DF informa que os encaminhamentos para unidades terapêuticas ocorrem de forma voluntária. Esse ponto é essencial. Pessoas em situação de rua e com dependência química precisam de cuidado, mas cuidado sem respeito à autonomia vira controle com outro nome.
O secretário interino de Justiça e Cidadania, Jaime Santana, afirma que cada encaminhamento representa uma oportunidade de recomeço e reconstrução de vínculos familiares e sociais. Já o subsecretário de Enfrentamento às Drogas, Diego Moreno, destaca que a tenda itinerante amplia a capacidade de identificar pessoas que precisam de apoio.
As equipes multidisciplinares são formadas por profissionais das áreas social e da saúde. Além do encaminhamento para tratamento, os acolhidos recebem acompanhamento psicossocial e apoio para retomada de vínculos familiares e comunitários.
Política social precisa medir permanência
O número de 806 atendimentos mostra presença do programa nas ruas, mas não encerra a avaliação sobre sua efetividade. O dado mais sensível é o acompanhamento posterior. Quantas pessoas permaneceram em tratamento? Quantas reconstruíram vínculos? Quantas acessaram documentação, renda, moradia, saúde e trabalho? Sem essas respostas, a política mostra movimento, mas ainda não mostra desfecho.
Essa cobrança não diminui a importância do programa. Ao contrário. Política pública séria precisa resistir à foto da tenda e ao número bonito. O que muda vidas é continuidade.
O Acolhe DF atua em uma fronteira difícil, onde convivem sofrimento psíquico, dependência química, pobreza, rompimento familiar, insegurança alimentar, falta de moradia e desconfiança em relação ao Estado. Ninguém reconstrói esse emaranhado com abordagem apressada.
Acolher é mais que encaminhar
A tenda na 702 Sul será mais uma etapa de uma ação que se propõe a estar perto da população vulnerável. O caminho é correto quando a abordagem vem com escuta, respeito e oferta concreta de cuidado. Mas a régua precisa continuar alta: acolhimento só é acolhimento quando não apaga a pessoa para resolver o problema da calçada.
O desafio do programa será transformar contato em vínculo, vínculo em tratamento e tratamento em reinserção social. Nas ruas, o fracasso de uma política pública raramente aparece em relatório. Ele aparece no mesmo rosto, no mesmo lugar, semanas depois.
Relacionada, fontes e documentos:
– Hotel Social dá pernoite e chance de recomeço no DF (Fonte em Foco)
– Comunicação Não Violenta no IgesDF (Fonte em Foco)
– Absorva o Bem leva dignidade menstrual à Rodoviária (Fonte em Foco)
– GDF fará acolhimento em 11 pontos do Plano Piloto (Fonte em Foco)
– Acolhe DF supera 800 atendimentos em dez meses e amplia ações (Agência Brasília)
– Acolhe DF amplia busca ativa e oferta tratamento a pessoas em situação de rua (Secretaria de Governo do DF)
– Reuniões do Acolhe DF avançam no Plano Piloto e reúnem moradores (Sejus-DF)

