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ANS vai apurar restrição à diálise por planos no DF

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Pacientes renais relatam barreiras de planos para fazer diálise no DF

A Secretaria Extraordinária do Consumidor do Distrito Federal vai encaminhar denúncia à Agência Nacional de Saúde Suplementar para apurar possíveis restrições impostas por planos de saúde a pacientes que dependem de diálise ou hemodiálise. A medida foi tomada após relatos de consumidores em tratamento renal substitutivo que afirmam enfrentar dificuldade para realizar o procedimento no estabelecimento adequado, mesmo quando o contrato prevê liberdade de escolha e reembolso.

Denúncia à ANS mira possível restrição à diálise

A denúncia pretende verificar se operadoras de planos de saúde estão impedindo, restringindo ou desestimulando pacientes renais a utilizar prestadores escolhidos por eles, quando há previsão contratual de livre escolha de médicos e estabelecimentos médico-hospitalares no Brasil.

O ponto central não é apenas a existência de rede credenciada. A secretaria quer saber se, na prática, a rede oferecida atende às necessidades do paciente e se as operadoras estão impondo obstáculos ao reembolso de procedimentos cobertos.

No contrato analisado pela pasta, há previsão de reembolso para despesas médicas e hospitalares cobertas, com liberdade de escolha de médicos e estabelecimentos. O mesmo documento inclui hemodiálise e diálise peritoneal entre as terapias cobertas mediante indicação médica.

A abertura de apuração não significa conclusão antecipada contra as operadoras. Significa que a denúncia aponta elementos suficientes para pedir fiscalização regulatória. Em saúde, especialmente quando o tratamento é contínuo e vital, a dúvida precisa ser resolvida antes que o paciente pague a conta com o próprio corpo.

Tratamento renal exige continuidade e previsibilidade

A diálise é um tratamento essencial para pessoas com falência ou grave comprometimento dos rins. Em muitos casos, o paciente precisa realizar sessões várias vezes por semana, de forma contínua. Por isso, localização, segurança assistencial, previsibilidade de agenda e vínculo com a equipe de saúde não são detalhes administrativos.

A própria lista de cobertura obrigatória da ANS inclui procedimentos relacionados à hemodiálise de curta e longa permanência. Em 2024, a agência também incorporou a diálise peritoneal automática ao rol de cobertura obrigatória da saúde suplementar, conforme diretrizes de utilização.

Segundo dados oficiais mencionados na documentação analisada pela secretaria, entre 2019 e 2024 foram identificados 361.924 atendimentos relacionados à hemodiálise no SUS envolvendo beneficiários de planos privados, com valor aproximado de R$ 1,47 bilhão para fins de ressarcimento. Cada atendimento pode envolver uma ou mais sessões, normalmente três ou quatro por semana.

Esses números ajudam a dimensionar o problema. Quando um beneficiário de plano privado acaba usando a rede pública para um procedimento que deveria estar coberto pela saúde suplementar, há impacto para o paciente, para o SUS e para toda a lógica de equilíbrio do sistema.

Secretaria vê risco de falha contratual e prática abusiva

A denúncia à ANS deve pedir apuração sobre possível restrição indevida à liberdade de escolha do prestador, negativa ou dificuldade de reembolso, ausência de informação clara ao consumidor, insuficiência de rede assistencial e eventual descumprimento das normas da saúde suplementar.

O secretário do Consumidor, Samuel König, afirma que o caso exige resposta dos órgãos de fiscalização. Para ele, pacientes em diálise não podem ser tratados como se estivessem pedindo um favor quando o procedimento é coberto e há previsão contratual de reembolso.

A secretaria também pedirá, caso irregularidades sejam confirmadas, a instauração dos procedimentos fiscalizatórios cabíveis e a aplicação de sanções administrativas às operadoras, inclusive multa.

A regulação da ANS prevê apuração de infrações no setor de saúde suplementar. Documentos da própria agência indicam que penalidades relacionadas a negativas de cobertura podem variar de R$ 60 mil a R$ 250 mil, conforme o tipo infrativo e a análise do caso concreto.

Quando o contrato vira obstáculo ao tratamento

A denúncia expõe uma tensão conhecida na saúde suplementar: o consumidor compra previsibilidade, mas muitas vezes encontra labirinto. No caso da diálise, esse labirinto não é um incômodo burocrático. É risco assistencial.

A atuação da ANS e do Procon-DF pode ocorrer de forma complementar. A agência reguladora apura infrações específicas do setor de planos de saúde. Já o sistema de defesa do consumidor pode investigar falha na prestação do serviço, prática abusiva, descumprimento contratual, falta de informação adequada, cobrança indevida e negativa injustificada de atendimento.

O caso também testa a transparência das operadoras. Se o contrato promete liberdade de escolha e reembolso, o consumidor precisa saber, de forma clara, quais limites existem, quais documentos são exigidos, quais prazos serão aplicados e por que determinado pedido foi negado. A ANS passou a exigir respostas mais claras das operadoras aos beneficiários, inclusive sobre negativas de cobertura.

A saúde suplementar não pode funcionar como porta giratória: vende segurança na entrada e empurra o paciente para a incerteza na hora do tratamento. Em diálise, a regra precisa ser simples. O paciente não pode disputar com o plano aquilo que o relógio clínico não permite adiar.

Orientação ao consumidor

Consumidores que enfrentarem negativa, demora injustificada, dificuldade de reembolso ou restrição de acesso a tratamento essencial devem reunir contrato, carteirinha do plano, pedido médico, relatório clínico, protocolos de atendimento, negativa formal, comprovantes de pagamento e mensagens trocadas com a operadora.

Também é importante guardar a indicação da unidade escolhida pelo paciente, a indicação da unidade imposta pelo plano, os valores cobrados, os pedidos de reembolso e qualquer documento que demonstre risco de interrupção ou atraso no tratamento.

Essas informações podem ser usadas em denúncias à ANS, ao Procon-DF e a outros órgãos competentes. Quanto mais documentado estiver o caso, menor será o espaço para a operadora transformar um tratamento essencial em discussão sem fim.

Fontes e documentos:

– SUS amplia tratamento contra câncer com R$ 2,2 bi (Fonte em Foco)
– Policlínica da PCDF terá obra de R$ 34,8 milhões (Fonte em Foco)
– DF mantém emergência contra gripe aviária (Fonte em Foco)
– Teleconsulta nas UPAs supera 23 mil atendimentos (Fonte em Foco)
– Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde (ANS)
– ANS incorpora nova tecnologia ao Rol (ANS)
– Resolução Normativa nº 489 de 2022 (ANS)
– Nota Técnica sobre negativas de cobertura e penalidades (ANS)

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