Publicidade
InícioBrasilCulturaComunidade mantém fogueira de Xangô há mais de 150 anos

Comunidade mantém fogueira de Xangô há mais de 150 anos

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

Cobertura relacionada

Seca no DF? Curta o fim de semana com música, arte e lazer!

Shows, teatro, exposições e passeios ao ar livre movimentam o DF em 22 e 23 de agosto. Veja opções para aproveitar o fim de semana na seca. Resumo do artigo: O Distrito Federal tem opções de lazer para diferentes públicos no fim de semana de 22 e 23 de agosto, com shows de Marisa Monte, Silva e Xand Avião, festival de música eletrônica, teatro, exposições e passeios em áreas naturais. Em meio à seca e à baixa umidade, a programação também exige atenção aos horários. Passeios externos são mais indicados nas horas mais amenas, enquanto centros culturais oferecem alternativas para o período mais quente do dia. Descrição social: De shows a passeios no Cerrado: veja o que fazer no DF em 22 e 23 de agosto e como aproveitar o fim de semana sem ignorar os efeitos da seca.

Decretado luto por Laura Cardoso e Glória Menezes

O Brasil cumpre três dias de luto oficial pelas mortes de Laura Cardoso, aos 98 anos, e Glória Menezes, aos 91. As duas atrizes morreram em intervalo inferior a 24 horas e receberam homenagens por decretos publicados em edição extra do Diário Oficial da União. Com carreiras que atravessaram diferentes fases da televisão brasileira, Laura e Glória também atuaram no teatro e no cinema e foram reconhecidas pelo Ministério da Cultura como referências da dramaturgia nacional.

Fé pesa na escolha eleitoral para 81% dos brasileiros

Pesquisa do LePar/UFF mostra que 81% dos brasileiros consideram fundamental que candidatos acreditem em Deus. O índice chega a 89% entre entrevistados com renda de até um salário mínimo e cai para 57% entre aqueles que recebem de 10 a 20 salários mínimos. O levantamento também revela uma diferença entre a valorização de Deus e a confiança nas instituições religiosas. A matéria explica ainda o resultado segundo o qual 54% defendem que o Estado não seja laico, o significado constitucional da laicidade e os limites para interpretar a relação entre religião e comportamento eleitoral.

Festival de balões e eventos culturais neste fim de semana

Festival de balões, shows, feiras e espetáculos gratuitos movimentam Brasília neste fim de semana. Confira a programação completa.

Planetário de Brasília oferece atrações gratuitas nas férias

Planetário de Brasília oferece programação gratuita até 2 de agosto, com exposição espacial, sessões imersivas, oficinas e telescópios.

Concerto gratuito celebra os 190 anos de Carlos Gomes

Carlos Gomes será homenageado com concerto gratuito no Guará. Veja o repertório, os solistas e como acompanhar a apresentação.
Publicidade

Festejo gratuito transforma memória familiar em encontro comunitário

Moradores de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, poderão participar nesta segunda-feira (29) de uma celebração que atravessa gerações de uma mesma família e hoje mobiliza toda uma comunidade. O Festejo Junino do Quilombo Mineiro Pau começa às 17h, com entrada gratuita, apresentações culturais, atividades para crianças e o tradicional acendimento da Fogueira de Xangô.

A programação será realizada na Travessa Aurora, 157, sede da Obra Social Filhos da Razão e Justiça e do Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo Kabiúna do Sertão.

A celebração reúne elementos das festas juninas, da religiosidade de matriz africana e da memória de pessoas negras que preservaram seus vínculos culturais mesmo diante da escravidão, da perseguição religiosa e das transformações sociais ocorridas no país.

Fogueira nasceu de uma tradição familiar

A história transmitida pela família Madeira atribui o início da tradição a Manoel Caetano Madeira, homem negro nascido escravizado em 1841, no município de Paraíba do Sul, no interior do estado do Rio de Janeiro.

Segundo o relato familiar preservado por seu bisneto, Fausto Manoel Madeira Neto, Manoel trabalhou em fazendas de café e viveu sob o regime da escravidão até aproximadamente os 41 anos.

Mesmo sem liberdade para manifestar abertamente suas crenças, teria mantido o costume de acender uma fogueira em 29 de junho, data dedicada no calendário católico a São Pedro e São Paulo.

Na tradição religiosa desenvolvida pela família, a celebração também se relacionava a Xangô, orixá associado à justiça, ao fogo, ao trovão e à autoridade.

“Ele chama de fogueira de São Pedro e São Paulo, mas, intrinsecamente, está acendendo uma fogueira para Xangô e fazendo os seus fundamentos”, explica Fausto.

O relato mostra como práticas religiosas africanas e afro-brasileiras puderam ser preservadas sob símbolos aceitos publicamente em períodos de repressão.

Celebração chegou a Santa Cruz após mudança da família

Manoel Caetano Madeira morreu em 1946, aos 105 anos, segundo a memória familiar. A responsabilidade de manter o acendimento passou para seu filho, Fausto Manoel Madeira.

Ao se mudar para Santa Cruz, ele levou consigo a tradição e continuou preparando a fogueira no quintal de casa.

Depois de sua morte, em 1988, a celebração passou a ser conduzida por Fausto Manoel Madeira Neto, que também ingressou na umbanda e incorporou a prática aos fundamentos religiosos do terreiro.

A transmissão entre bisavô, avô e bisneto transformou um costume doméstico em uma referência coletiva para os moradores do Mineiro Pau.

“Foi a maior e mais bela herança que ele me deixou, a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho dele”, afirma Fausto Neto.

Hoje, ele pretende transmitir o compromisso aos filhos Pedro, Aline e Júlia e às próximas gerações.

Tradição religiosa também preserva a memória negra

O acendimento da fogueira ocorre em um país no qual terreiros e praticantes de religiões de matriz africana enfrentaram perseguição policial, apreensão de objetos sagrados e criminalização de suas práticas.

Nesse contexto, a continuidade da celebração adquiriu um significado que ultrapassa a devoção familiar.

Para a comunidade, a fogueira passou a representar pertencimento, ancestralidade e resistência cultural. As histórias compartilhadas ao redor do fogo ajudam a manter referências que poderiam ter sido apagadas pela escravidão, pelo racismo e pela intolerância religiosa.

A expressão “patrimônio vivo”, usada pelos organizadores, descreve esse valor cultural e comunitário. Não significa, contudo, que a celebração tenha recebido formalmente um registro de patrimônio imaterial pelos órgãos responsáveis.

O reconhecimento mais concreto está na permanência da prática e na participação das famílias que voltam a se reunir a cada 29 de junho.

Terreiro ampliou atuação cultural e social

A celebração é promovida pelo Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo Kabiúna do Sertão e pela Obra Social Filhos da Razão e Justiça.

Fundada em 2016, a organização desenvolve projetos voltados a crianças, adolescentes, jovens e famílias da comunidade. As atividades abrangem educação antirracista, música, dança, leitura, escrita, Libras, saúde preventiva e distribuição de refeições.

O trabalho utiliza as manifestações culturais como instrumentos de formação e fortalecimento da identidade.

A fogueira ocupa posição central nessa estrutura. Ao reunir moradores, visitantes e diferentes gerações, o festejo conecta o fundamento religioso do terreiro às ações sociais desenvolvidas durante o ano.

“Somos um terreiro e fazemos um trabalho voltado para o fortalecimento da cultura antirracista, da educação e do trabalho social”, afirma Fausto.

Dança do Mineiro Pau envolve crianças da comunidade

Uma das atrações do festejo será a Dança do Mineiro Pau, manifestação popular na qual os participantes executam movimentos em pares ou em roda enquanto batem bastões de madeira de forma ritmada.

A prática possui registros em diferentes regiões do Sudeste e recebeu características próprias em cada território. Na comunidade de Santa Cruz, foi incorporada à memória negra local e deu nome ao lugar onde as famílias vivem.

Fausto participou da dança há cerca de 40 anos e trabalhou para recuperar a manifestação com crianças e adolescentes.

A Obra Social mantém oficinas e o Grupo de Dança Mineiro Pau Valdemar Madalena, que já participou de eventos culturais dentro e fora da Zona Oeste.

A retomada permite que os mais jovens aprendam movimentos, músicas e histórias que não costumam aparecer nos conteúdos escolares tradicionais.

O festejo também terá apresentação de jongo, expressão afro-brasileira marcada por tambores, canto, dança em roda e versos improvisados.

Festa reúne religiosidade e cultura popular

A programação aproxima tradições que, no cotidiano da comunidade, não aparecem como universos separados.

Bandeirinhas, comidas típicas e elementos das festas juninas convivem com referências a Xangô, jongo, ancestralidade e educação antirracista.

As crianças participam das apresentações, das atividades recreativas e da preparação do espaço. Para os organizadores, esse envolvimento é parte do processo de transmissão cultural.

“É uma festa muito esperada. As crianças ficam aguardando, montam as bandeirinhas e reverenciam Xangô e os santos São Pedro e São Paulo”, relata Fausto.

O evento é aberto ao público e busca aproximar visitantes da produção cultural existente em Santa Cruz, região frequentemente afastada dos circuitos mais conhecidos do Rio de Janeiro.

Memória oral exige preservação e documentação

A continuidade da fogueira mostra a força da transmissão familiar, mas também expõe a fragilidade das histórias sustentadas quase exclusivamente pela memória oral.

Relatos de pessoas negras escravizadas, de suas famílias e de comunidades periféricas foram pouco registrados por instituições oficiais. Muitas trajetórias sobreviveram porque alguém decidiu repeti-las, ensiná-las e transformá-las em celebração.

Documentar essas memórias não significa substituir a palavra dos descendentes. Significa criar condições para que registros, fotografias, depoimentos e pesquisas permaneçam disponíveis às próximas gerações.

A Fogueira de Xangô atravessou mais de um século porque foi assumida como responsabilidade familiar e comunitária.

Enquanto houver pessoas reunidas ao redor da chama, a celebração continuará narrando uma história que os documentos oficiais nem sempre souberam ou quiseram guardar.

Festejo Junino do Quilombo Mineiro Pau

Data
29 de junho de 2026

Horário
A partir das 17h

Local
Quilombo Urbano Mineiro Pau

Endereço
Travessa Aurora, 157, Santa Cruz, Rio de Janeiro

Entrada
Gratuita

Programação
Fogueira de Xangô, Dança do Mineiro Pau, jongo, música popular, comidas típicas, atividades infantis e celebração da ancestralidade

Relacionadas, fontes e documentos

Exposição chinesa reúne 10 mil anos de história no Rio (Fonte em Foco)
Filme de Camurati questiona raízes da desigualdade (Fonte em Foco)
Culturas tradicionais ganham política nacional (Fonte em Foco)
– Filme sobre violência contra mulher chega a Cannes (Fonte em Foco)
– Quilombo mantém tradição centenária como símbolo da resistência negra (Agência Brasil)

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.