Ações policiais deixam quase 12 mortos por dia nos estados acompanhados
Nove estados brasileiros registraram 4.330 mortes decorrentes de intervenções policiais em 2025, média de quase 12 vítimas por dia e alta de 6,4% em relação ao ano anterior. O resultado é o maior da série iniciada em 2019 pelo relatório Pele Alvo, que acompanha Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
Entre os registros nos quais a raça ou a cor da vítima foi informada, 86,3% eram pessoas negras, classificadas como pretas ou pardas. Foram 3.104 mortes. O percentual, portanto, não corresponde ao conjunto das 4.330 vítimas, mas apenas aos casos com identificação racial disponível.
Pessoas negras concentram mortes com raça identificada
A comparação entre o perfil da população e o das vítimas mostra uma diferença persistente nos nove estados. A taxa de mortes de pessoas negras decorrentes de intervenção policial foi, em média, quatro vezes maior que a registrada entre pessoas brancas. Em Pernambuco, a diferença chegou a 11 vezes; no Rio de Janeiro, a seis vezes.
O contraste aparece mesmo em estados com composições demográficas distintas. No Amazonas, pessoas negras representam 73,7% da população e 96% das vítimas com raça identificada. Em Pernambuco, as proporções são de 65,3% e 94,4%. Em São Paulo, onde pretos e pardos correspondem a 40,9% dos moradores, eles foram 64,6% das vítimas identificadas.
A leitura desses percentuais exige uma ressalva. Ceará e Maranhão ainda mantêm mais da metade dos registros sem informação sobre raça ou cor. A lacuna atingiu 57,5% das vítimas cearenses e 54,9% das maranhenses em 2025.
Houve melhora em relação aos levantamentos anteriores, mas os dados continuam insuficientes para retratar integralmente a distribuição racial das mortes. No Maranhão, a proporção de vítimas negras aumentou 22 pontos percentuais depois do avanço no preenchimento dos registros. No Ceará, a alta foi de aproximadamente oito pontos.
Jovens de até 29 anos são quase dois terços das vítimas
A idade reforça outro padrão. Pessoas com até 29 anos representaram 64,8% das mortes, com 2.804 vítimas. Desse total, 2.492 tinham entre 18 e 29 anos, 310 eram adolescentes de 12 a 17 anos e duas eram crianças de até 11 anos. Outros 296 registros não apresentavam a idade.
A concentração entre os mais jovens variou pelos estados. Na Bahia, 1.043 vítimas tinham entre 18 e 29 anos. No Pará, eram 388; em São Paulo, 348; e no Rio de Janeiro, 409.
Os números indicam que a letalidade não se distribui de maneira uniforme. Ela alcança com maior frequência homens jovens e negros, moradores de áreas periféricas, perfil que se mantém apesar das mudanças na dinâmica do crime organizado e nas políticas estaduais de segurança.
Bahia lidera mortes e quatro estados atingem recorde
A Bahia concentrou o maior número absoluto, com 1.570 mortes. O total ficou abaixo do pico de 1.702 vítimas registrado em 2023, mas significa que houve ao menos uma morte decorrente de intervenção policial em 346 dos 365 dias de 2025.
São Paulo apareceu em seguida, com 834 mortes, seguido por Rio de Janeiro, com 800; Pará, com 632; Ceará, com 200; Maranhão, com 142; Pernambuco, com 89; Amazonas, com 43; e Piauí, com 20.
Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo alcançaram seus maiores números desde o início da série, em 2019. O Maranhão apresentou o avanço proporcional mais acentuado, de 86,8%. Pernambuco teve crescimento de aproximadamente 30,9%, enquanto Rio de Janeiro, São Paulo e Pará registraram altas de 13,8%, 2,7% e 5,9%, respectivamente.
O Amazonas permaneceu com 43 vítimas. O Piauí foi o único estado com redução, ao passar de 24 para 20 mortes, queda de 16,7%.
Expansão de facções aparece como hipótese para as altas
A expansão de organizações criminosas para o Norte e o Nordeste é apresentada como uma das hipóteses para o crescimento observado em alguns estados, e não como causa isolada ou definitivamente comprovada.
No Maranhão, o avanço de grupos originários do Rio de Janeiro e de São Paulo e sua articulação com organizações locais são apontados como fatores que podem ter alterado as disputas por rotas de circulação de drogas. Ceará e Pernambuco também aparecem inseridos nesse processo de reorganização territorial.
O aumento da presença de facções, contudo, não elimina a responsabilidade do Estado sobre o planejamento das operações, o uso proporcional da força, a investigação das mortes e o controle externo da atividade policial.
Pernambuco e Rio defendem protocolos de atuação
A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco afirmou que as intervenções seguem critérios técnicos, operacionais e legais e que características pessoais, como a cor da pele, não são utilizadas para autorizar ações policiais.
A pasta declarou ainda que ocorrências com morte são encaminhadas à Corregedoria-Geral e submetidas à apuração, com responsabilização quando são identificadas irregularidades. Também informou manter investimentos em formação profissional, inteligência e revisão de protocolos operacionais.
O governo do Rio de Janeiro apresentou dados posteriores ao período analisado. Entre janeiro e maio de 2026, foram registradas 295 mortes por intervenção de agentes do Estado, redução de 12% em relação aos mesmos meses de 2025 e menor resultado para o intervalo desde 2014.
A administração fluminense afirmou que as operações são planejadas com apoio de inteligência e atribuiu os confrontos à resistência armada de grupos criminosos. Os demais estados não haviam apresentado resposta até a publicação da apuração original.
Falhas no registro reduzem a capacidade de controle
Os dados utilizados no levantamento foram obtidos diretamente das secretarias estaduais e de órgãos correlatos por meio da Lei de Acesso à Informação. Depois do recebimento, as bases passaram por padronização e verificação de inconsistências.
O método permite comparar tendências, mas não produz um retrato completo do Brasil, pois abrange apenas nove estados. As diferenças na classificação racial, os casos sem idade informada e a ausência de uma padronização nacional também restringem o alcance do diagnóstico.
Entre 2019 e 2025, os estados acompanhados acumularam 28.799 mortes decorrentes de intervenções policiais. O crescimento observado em 2025 amplia a pressão por registros públicos mais completos, investigação independente, fiscalização do Ministério Público e avaliação dos resultados das políticas de segurança para além do número geral de crimes.
No Rio de Janeiro, parte desse controle está vinculada à ADPF 635, processo no qual o Supremo Tribunal Federal estabeleceu medidas voltadas à redução da letalidade e ao acompanhamento das operações policiais em comunidades.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Inca lança cartilha Saúde com Axé para mulheres negras (Fonte em Foco)
– Comunidade mantém fogueira de Xangô há mais de 150 anos (Fonte em Foco)
– Desemprego em 5,6% é o menor para maio desde 2012 no país (Fonte em Foco)
– Filme de Camurati questiona raízes da desigualdade (Fonte em Foco)
– Oito em cada 10 mortos em ações policiais são negros, mostra relatório (Agência Brasil)

