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Justiça reduz acusação em caso de mulher queimada viva

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Réu acusado de atear fogo na companheira responderá por lesão corporal grave

A decisão do Tribunal de Justiça do Paraná de desclassificar a acusação contra José Rodrigo Bandura, réu preso e acusado de atear fogo na companheira em junho de 2025, desloca o caso de tentativa de feminicídio para lesão corporal grave. A mudança reduz a gravidade penal da acusação e retira o processo do caminho inicialmente associado a crime hediondo.

Decisão aceitou tese de arrependimento eficaz

A 1ª Câmara Criminal do TJ-PR acolheu pedido da defesa e entendeu que o réu não deve responder por tentativa de feminicídio. O fundamento central foi a tese de arrependimento eficaz, instituto jurídico aplicado quando o agente, após iniciar a execução do crime, age para impedir a consumação do resultado.

No caso, os desembargadores consideraram que Bandura teria ajudado a vítima após atear fogo nela. A defesa sustentou que ele tentou conter as chamas e buscou socorro. Com isso, o colegiado afastou, nesta etapa, a acusação de intenção de matar e reclassificou o caso para lesão corporal grave.

A decisão não significa absolvição. O réu continua preso, e o processo seguirá com nova tipificação. A diferença é relevante porque a lesão corporal grave tem tratamento penal menos severo do que a tentativa de feminicídio e não integra, nessa forma, o rol de crimes hediondos.

Caso segue sob análise do Ministério Público

O Ministério Público do Paraná avalia a possibilidade de recurso contra a desclassificação. O órgão aguarda análise técnica e abertura de prazo recursal. O MP também se manifestou contra o pedido de liberdade apresentado pela defesa, que foi negado pela Justiça paranaense.

Esse ponto mantém o caso em disputa jurídica. A classificação penal ainda pode ser revista em instâncias superiores, caso o Ministério Público recorra e obtenha decisão favorável.

O debate é sensível porque a tipificação define não apenas a pena possível, mas também o juízo competente, o rito processual e a forma como o Estado interpreta a violência praticada. Em casos de violência doméstica, a palavra escolhida pelo processo pesa. Às vezes, pesa quase tanto quanto o silêncio que veio antes.

Histórico de violência amplia gravidade social

Bandura já respondeu a oito processos por violência doméstica, todos arquivados. Em um deles, em 2019, foi condenado a pouco mais de três meses em regime semiaberto e ao pagamento de R$ 2 mil de indenização por agressões físicas.

Esse histórico não substitui a prova do caso atual, mas ajuda a compreender o contexto de risco. A violência contra a mulher raramente aparece como episódio isolado. Em muitos casos, ela se organiza em ciclos de ameaça, controle, agressão e retorno forçado à normalidade.

A vítima, na época do crime, teria buscado refúgio em um banheiro para escapar de novas agressões. Esse detalhe, se confirmado nos autos, confronta a leitura de que o socorro posterior apaga a intensidade da violência anterior. O direito penal discute intenção. A vida concreta discute sobrevivência.

Feminicídio é crime hediondo desde 2015

O feminicídio foi incluído no Código Penal pela Lei nº 13.104/2015, que também o inseriu no rol dos crimes hediondos. A lei considera feminicídio o homicídio cometido contra mulher por razões da condição do sexo feminino, especialmente em contexto de violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

A legislação brasileira avançou desde 2015, mas os tribunais continuam enfrentando uma fronteira difícil: distinguir lesão grave, tentativa de homicídio e tentativa de feminicídio em contextos de violência doméstica. Essa distinção exige prova técnica, análise da dinâmica do fato, histórico de agressões, meio usado, intensidade do ataque e comportamento posterior do acusado.

A controvérsia do caso paranaense está exatamente aí. Ateando fogo em uma mulher, o risco de morte é evidente. A dúvida jurídica discutida pelo tribunal foi se, pelas circunstâncias posteriores, havia prova suficiente de intenção de matar.

Violência contra mulher ganha novas frentes legais

O caso ocorre em uma semana marcada por medidas federais de enfrentamento à violência contra mulheres. O Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio completou 100 dias, e novas leis foram sancionadas para ampliar proteção, criar cadastro nacional de condenados por violência contra a mulher e reforçar mecanismos de resposta contra agressores.

Também tramita no Congresso o PL 896/2023, que inclui a misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação. O texto foi aprovado no Senado em março, com 67 votos favoráveis e nenhum contrário, e seguiu para análise da Câmara dos Deputados.

A conexão entre esses temas não é apenas simbólica. Ela mostra que o país tenta ampliar instrumentos legais enquanto casos concretos continuam testando a capacidade do sistema de reconhecer a gravidade da violência de gênero.

O processo discute lei, mas o país discute proteção

A decisão do TJ-PR deve ser lida dentro do processo, com cautela jurídica. O tribunal acolheu uma tese defensiva, o Ministério Público pode recorrer e a responsabilidade penal definitiva ainda dependerá do desfecho judicial.

Ainda assim, o caso provoca uma pergunta pública difícil: como o sistema de Justiça deve interpretar uma agressão em que uma mulher é incendiada pelo companheiro e sobrevive?

A resposta não pode ser movida por clamor, mas também não pode ignorar o padrão estrutural da violência doméstica. Quando o fogo entra numa relação, a discussão jurídica deixa de ser apenas técnica. Ela passa a medir a distância entre a letra da lei e o medo real de quem tenta sobreviver dentro de casa.

Relacionadas, fontes e documentos:

– Novas leis ampliam proteção às mulheres brasileiras (Fonte em Foco)
– Pacto nacional dos três Poderes contra o feminicídio (Fonte em Foco)
– Centros ajudam mulheres a romper ciclos no DF (Fonte em Foco)
– Mães cientistas perdem espaço na carreira acadêmica (Fonte em Foco)
– Justiça do Paraná reduz pena de homem que ateou fogo na companheira (Agência Brasil)
– Lei nº 13.104, de 9 de março de 2015 (Planalto)
– PL 896/2023 (Senado Federal)
– Projeto de Lei 896/2023 na Câmara dos Deputados (Câmara dos Deputados)

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